Bloco de Notas: Uma ‘paz armada’ pouco duradoura entre Benfica e FC Porto
Em Portugal é assim. Boas relações entre os ‘grandes’ são normalmente uma mera miragem e, quando acontecem, revelam-se pouco duradouras ou por conveniência. Aquilo que foi noticiado como uma aproximação entre FC Porto e Benfica não passou de uma ‘paz armada’. Ao primeiro tiro, voltaram-se a disparar morteiros em todas as direções.
Visivelmente incomodado com um discurso mais áspero – nem sempre adequado – de Bruno de Carvalho, Pinto da Costa não se demorou a procurar uma aproximação a Luís Filipe Vieira, também ele com um pé atrás em relação à postura agressiva do presidente do Sporting, que nunca parece ter tentado uma aliança lisboeta (não se entende porquê) contra o FC Porto.
Muito amigos – diz-se até que existiu um jantar para oficializar a aproximação -, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira estiveram juntos no apoio a Luís Duque para liderar a Liga. Segundo notícia publicada pelo jornal Record no final de outubro, os líderes de FC Porto e Benfica foram os primeiros a conhecer a escolha de Duque para a Liga, apoiada por 27 clubes. Bruno de Carvalho e o Sporting ficaram de fora, não poupando críticas à opção por Luís Duque.
A verdade é que esta aproximação (e todos o sabiam!) não foi mais do que uma conveniência passageira em que coincidiram os interesses de Benfica e FC Porto. Começando nos adeptos e terminando nos mais altos dirigentes, todos sabem que a rivalidade entre águias e dragões não permite boas relações.
A prova disso foi o discurso, que começou a ser agressivo na última semana, entre personalidades ligadas ao FC Porto e ao Benfica. Julen Lopetegui já vinha mostrando sinais de se sentir agastado com a arbitragem nos jogos da sua equipa, mas nunca envolveu os rivais encarnados na equação. Até à última segunda-feira, após uma complicada vitória no Bessa (0-2), frente ao Boavista.
«Hoje, não tivemos a sorte que os outros costumam ter, mas já nos estamos a acostumar e temos sempre que fazer mais do que os outros. Estou a falar de uma época inteira». A resposta do benfiquista José Eduardo Moniz às palavras de Lopetegui não se fez demorar, criticando uma tentativa de condicionamento da arbitragem por parte do FC Porto.
«O que Lopetegui ontem disse foi aquilo que o instruíram a afirmar. Como só chegou este ano ao futebol português, o melhor que pode fazer é pedir à sua entidade patronal para ter acesso aos arquivos dos últimos 25 anos de forma a ficar a saber o que é favorecimento no futebol português», sugeriu, em declarações à Rádio Renascença.
Seguiu-se uma resposta do FC Porto nas redes sociais, com a estrutura azul e branca a relembrar os troféus ganhos pelo clube nos últimos 25 anos. «Arquivo dos últimos 25 anos: 1 Liga dos Campeões, 2 Taças UEFA/Liga Europa, 1 Taça Intercontinental, 17 campeonatos, 10 Taças de Portugal e 16 Supertaças de Portugal (Total: 47 títulos)», escreveram os azuis e brancos.
Faltava Jorge Jesus, mas o treinador do Benfica entrou na troca de palavras à primeira oportunidade. «O treinador do FC Porto está sempre a falar de arbitragens. É natural que fale sobre essa matéria, mas não quero ir por aí. Só lhe pergunto de que jogo está a falar. Se é do Penafiel-FC Porto já sei do que é que ele está a falar», respondeu, na conferência de imprensa de antevisão da receção ao Estoril-Praia.
Já hoje, na antevisão do ‘Clássico’ frente ao Sporting, Julen Lopetegui não se esforçou por colocar um ponto final na troca de palavras. O treinador portista apenas salientou que nunca referiu o nome do Benfica e que, se os encarnados se sentiram afetados pelas suas palavras, então é porque terão alguma culpa no cartório. Para tal, recorreu a uma expressão em latim.
«Eu não falei das arbitragens. Estão confundidos. Falei de azar, nada mais. E não me dirigi a nenhuma equipa, mas apenas uma respondeu. Excusatio non petita, culpabilita manifesta», que pode traduzir-se como ‘quem se desculpa sem ter sido acusado, culpabiliza-se’», afirmou Lopetegui.
Estranhamente, ou nem por isso, porque ainda existirão interesses em comum que importa preservar, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, figuras máximas de FC Porto e Benfica, mantêm-se à margem desta troca acesa de galhardetes que promete continuar durante mais algum tempo. É a política do futebol.
Apesar de estarem separados por quatro pontos, parece certo que, tanto águias como dragões já compreenderam que muito do seu sucesso na Liga NOS poderá depender da forma como se conseguirem movimentar fora das quatro linhas. E isso não honra lá muito a modalidade…
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