Após seis anos de idílio, Jesus regressa à Luz para enfrentar o «desamor»
Jorge Jesus regressa domingo ao estádio da Luz para o rescaldo de uma história de ‘amor’ que acabou mal, com a ida do treinador para o Sporting, adversário do Benfica na oitava jornada da I Liga de futebol.
A história de Jorge Jesus no Benfica foi um idílio, um verdadeiro amor à primeira vista. Jesus chegou, viu e venceu: desde 2009/10, época em que assinou pelos ‘encarnados’, o homem que disse ser a Paula Rego do futebol conquistou 10 títulos, o último na final da edição 2014/15 da Taça da Liga.
Poucos sabiam que aquela vitória de 29 de maio, em Coimbra, frente ao Marítimo, seria a última do técnico sexagenário ao comando das ‘águias’, um título que lhe permitiu deixar para trás o brasileiro Otto Glória, que somou nove títulos em oito épocas (1954/59 e 67/70).
Depois do título de campeão nacional no seu primeiro ano de ‘reinado’, o técnico festejou mais dois campeonatos, uma vitória na Taça de Portugal, cinco na Taça da Liga e uma na Supertaça, conquistando os benfiquistas, que lhe perdoaram, inclusive, as eliminações precoces na Liga dos Campeões, as duas finais perdidas na Liga Europa e, sobretudo, aquele ajoelhar em campo motivado pelo golo do portista Kelvin, que custou o título em 2012/2013.
Mas, como muitas histórias de amor, a de ‘JJ’ e do Benfica conheceu um fim, a 04 de junho, dia em que o clube da Luz, que, alegadamente, tentou colocá-lo numa equipa estrangeira, anunciou o fim das negociações com o treinador, cujo contrato terminava a 30 de junho, e o início de “conversações preliminares” com possíveis sucessores.
O que se seguiu foi uma verdadeira novela, daquelas que alimentam páginas e páginas durante o defeso: a 05 de junho, o diretor de comunicação do Benfica, João Gabriel, assumia a saída do técnico e a sua mudança para o Sporting, através da sua conta no Twitter, criticando a sua “ingratidão” e, um dia depois, Bruno de Carvalho anunciava a contratação de Jesus por três temporadas, empurrando borda fora Marco Silva, alvo de um processo disciplinar com vista ao despedimento por justa causa.
Coincidência das coincidências, a estreia oficial do amadorense ao comando dos ‘verdes e brancos’ seria, precisamente, frente à sua anterior equipa, a 09 de agosto. Mas até esse dia, Jesus, bem ao seu jeito, despudorado e sem papas na língua, desmultiplicou-se em declarações, mais ou menos polémicas, que tiveram início na sua apresentação oficial, a 01 de julho, quando prometeu “acordar o ‘leão’ adormecido” e ser candidato “a todos os títulos em Portugal”.
Cinco dias depois, no programa ‘Play-off’ da SIC Notícias, o técnico confessou que não se sentiu desejado no Benfica na última temporada, que a transferência para o Sporting aconteceu “de um momento para o outro”, reconhecendo que “o sentimental também teve alguma influência”, pelo seu pai ser sportinguista, mas sobretudo pelo “entusiasmo” de sentir que o queriam.
O antes e o depois da Supertaça agravaram o ‘desamor’ entre ex-treinador e ex-equipa, com Jesus a repetir que os ‘encarnados’ tinham “o mesmo sistema, a mesma ideia de jogo, as mesmas estratégias de bola parada” do seu tempo e a mágoa ‘benfiquista’ a crescer com a vitória dos ‘leões’ na final – “O Benfica teve medo do Sporting”, disse depois da conquista.
Seguiram-se notícias sobre alegadas mensagens que o técnico teria enviado aos seus antigos pupilos, picardias de ambos os lados, mas a ‘traição’ esteve adormecida até 15 de outubro, quando a Sábado revelou que o Benfica exige 14 milhões de euros na ação que interpôs contra Jesus no Tribunal do Barreiro, alegando contactos mantidos pelo seu ex-treinador com um funcionário do Sporting ainda durante a vigência do anterior contrato e apropriação de ‘software’ confidencial do clube.
Ainda assim, no seu regresso à Luz, que acontece depois de seis anos de idílio e com o Sporting cinco pontos à frente (os ‘encarnados’ têm um jogo em atraso), o treinador, nascido a 24 de julho de 1954, não espera excessiva animosidade. “Espero ser recebido de forma normal na Luz, como fazem os adeptos do Benfica com os treinadores de outras equipas…”, disse esta semana à Bola TV.


