A história do agente de futebol que desbravou o negócio da China
Após seis anos a negociar transferências de futebolistas para a China, Pedro Neto deixou de ser considerado “parvo” e passou a ser visto como “persistente”, com o país a surgir como novo “El Dorado” da modalidade.
“Quando comecei, algumas pessoas riam-se. Outras não acreditavam e perguntavam: o que é que ele vai para lá fazer?”, contou à agência Lusa o empresário de 36 anos, natural do Porto.
Desde a sua primeira deslocação à China, Pedro Neto já lá voltou 40 vezes.
“O país já não é o mesmo e o futebol é hoje completamente diferente”, assegurou, sublinhando que “a diferença entre o parvo e o persistente é só o resultado final”.
No total, as 16 equipas que disputam a Superliga chinesa investiram, em 2016, cerca de 460 milhões de euros (ME) na contratação de jogadores estrangeiros, cerca de três vezes o montante gasto no ano anterior.
Em menos de um ano, o recorde da transferência mais cara no país foi batido em seis ocasiões, culminando com a contratação do brasileiro Óscar, pelo Shanghai SIPG, aos ingleses do Chelsea, por 60 ME.
No SIPG, que é treinado pelo português André Villas-Boas, joga ainda o ex avançado do FC Porto Hulk, o segundo mais caro de sempre na China, e cujo salário anual está fixado em 20 ME.
Pedro Neto contrapôs este montante com os seus primeiros negócios, nos quais tentava convencer futebolistas a aceitarem contratos de 20 mil euros.
“Nessa altura, convencer um jogador a ir para a China era quase impossível. Hoje é ao contrário: é preciso convencer os clubes, porque jogadores a querer ir não faltam”, frisou.
O receio de deixar de ser convocado para a respetiva seleção, devido ao pouco prestígio do campeonato chinês, constituía outro entrave em persuadir o futebolista.
Dunga, antigo selecionador brasileiro, chegou a afirmar, em 2015, que dificilmente convocaria um jogador que alinhasse por um clube chinês.
Mas, a mais recente convocatória do Brasil, agora sob a orientação de Tite, incluiu três futebolistas que jogam na China: Gil (Shandong Luneng), Paulinho (Guangzhou Evergrande) e Renato Augusto (Beijing Guoan).
Pedro Neto reconheceu que este é “um dos grandes fenómenos que mudou a forma de encarar a ida para a China”.
“Eles sabem que os ‘flashes’ começam a estar nesta Liga, sabem que a questão de sair do radar já não acontece”, explicou.
Em 2012, Didier Drogba e Nicolas Anelka tornaram-se as primeiras ‘estrelas’ a rumarem ao país asiático, ao assinarem pelo Shanghai Shenhua.
Os jogadores acabaram, contudo, por sair passados seis meses, devido à rotura entre o presidente e o maior acionista do clube, que deixou de assumir os gastos com a equipa.
“Esse caso serviu de aviso para as práticas de má gestão. Hoje, os clubes têm muito dinheiro e estão mais profissionais. Isso vê-se a todos os níveis”, vincou Neto.
O poder financeiro da China tem despertado a atenção dos maiores agentes de futebol do mundo, mas o portuense não receia a competição.
“Em seis anos consegues criar uma relação, mas não numa só transferência e aqui [na China] faz mais negócios quem tem uma relação do que quem é tubarão”, argumenta.
Pedro Neto tem nova viagem à China marcada para o início deste ano, contando com a companhia de uma antigo internacional português, que agora se dedica ao agenciamento e vai também para conhecer os novos milionários do futebol.


