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Jesualdo Ferreira, o primeiro treinador português a vencer três campeonatos de futebol consecutivos, estreou-se a comandar equipas seniores, na União de Rio Maior, na época 1981/82, levando o clube ao oitavo lugar da zona Centro da II Divisão.

Tricampeão Jesualdo estreou-se a meio da tabela da II Divisão
Tricampeão Jesualdo estreou-se a meio da tabela da II Divisão

Há 27 anos, além da licenciatura em Educação Física no ISEF (actual Faculdade de Motricidade Humana), o treinador do FC Porto, então com 35 anos, apenas detinha no currículo passagens pelos escalões de formação do Benfica e da Federação Portuguesa de Futebol.

Seguindo o conselho de Jean Paul, actual treinador dos escalões de formação do Sporting, que jogava no conjunto riomaiorense e comandou interinamente a equipa, juntamente com o jogador Armando, depois da saída do técnico Carlos Canário, os dirigentes da União de Rio Maior acederam a reunir-se com Jesualdo Ferreira, em Lisboa.

“Para mim era um desconhecido. Sabia que tinha treinado sempre nas camadas jovens, mas assim que falámos com ele vimos logo a diferença. Viemos encantadíssimos, estávamos habituados a treinadores caceteiros e depois encontramos um treinador formado”, recordou à Lusa Manuel Marcelino, na época chefe do departamento de futebol do clube.

Admitindo alguma “vaidade” por ter “apadrinhado” a estreia do primeiro treinador português a sagrar-se três vezes consecutivas campeão nacional, Manuel Marcelino destaca que as dificuldades na contratação foram ultrapassadas pelo discurso de Jesualdo Ferreira: “A partir do momento que ele nos encheu as medidas, tínhamos de o contratar”.

O presidente da Câmara Municipal de Rio Maior, Silvino Sequeira, na altura vice-presidente do clube, acrescenta que “o professor foi escolhido por um voto de diferença, em detrimento do Cavém”.

A estreia do actual treinador do FC Porto no futebol sénior ocorreu a 13 de Dezembro de 1981, na 10ª jornada da zona Centro do campeonato nacional da II Divisão, com a deslocação da União de Rio Maior, então sétimo classificado com 10 pontos, a Peniche.

“A U.D. Rio Maior ‘mandou’ no terreno e praticou um futebol vistoso, acutilante e prático”, descreveu o jornal local “O Zé”, de 17 de Dezembro de 1981, acrescentando que Jesualdo Ferreira tinha sido “seleccionador de juniores e juvenis e treinador dos juniores do SL Benfica”.

O actual treinador do Amiense da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Santarém, Mauro Pulquério, salienta que, à chegada, Jesualdo “foi visto com alguma desconfiança pelos jogadores mais experientes, houve algumas resistências, mas rapidamente foram desfeitas com o trabalho, com a forma de gerir os treinos e o grupo, acabando por conquistar a admiração de todos”.

“Foi uma lufada de ar fresco”, sublinha o ex-médio, que cumpria o primeiro ano de sénior, na época 1981/82, destacando a firmeza de Jesualdo Ferreira: “Já tinha uma postura de durão. Na altura, usava bigode e era raro vermos-lhe os dentes”.

Quase três décadas volvidas, Jean Paul, agora com 57 anos, que coadjuvou Jesualdo Ferreira no Torreense e na Académica, confirma: “Não era pessoa de grandes sorrisos, mas hoje vejo-o sorrir mais vezes do que antigamente”.

“O Jesualdo pretendia que a equipa fosse organizada, num tempo de futebol casuístico, mas ele distinguia-se pela organização da dinâmica da equipa, pela exigência no trabalho e pelo planeamento individualizado do treino”, explicou à Lusa Jean Paul.

Também Silvino Sequeira recorda a “personalidade forte, as ideias bem definidas e a sensação de que sabia onde queria chegar e o caminho que teria de percorrer”: “Graças a ele, a União de Rio Maior conseguiu uma belíssima classificação, depois de uma campanha muito boa”.

No final da primeira volta, após a vitória caseira sobre o Covilhã, por 3-0, o jornal local destacava a exibição da equipa então comandada pelo actual tricampeão.

“Sem exagerar, pode dizer-se que o futebol praticado neste encontro mais parecia de 1ª Divisão. Na verdade, a equipa riomaiorense, comandada pelo Prof. Jesualdo Ferreira, impôs um ritmo fulgurante, com passagens ao primeiro toque, triangulações constantes e remates prontos, praticando futebol de primeira qualidade”, descrevia a crónica de “O Zé”.

Apesar de comandar uma “equipa para manter, para lutar pelos lugares a meio da tabela”, Mauro Pulquério avalia positivamente o desempenho do técnico: “Era um clube bastante humilde e fez um excelente campeonato, apesar de alguns problemas de dinheiro”.

“O professor acabou por não ficar até ao final da época, nem ir ao último jogo na Covilhã por causa de salários em atraso”, referiu o ex-jogador, actualmente com 45 anos.

Um facto atestado em “O Zé”, que após o final do campeonato noticiava: “Jogadores da UDRM em greve? O insólito aconteceu!”.

“Estava em causa, segundo o capitão da turma, Brites, o débito do mês anterior e, se não recebessem, não treinariam”, detalha o jornal, explicando ainda a saída do treinador: “Como um mal nunca vem só, também o treinador Prof. Jesualdo Ferreira se recusou a acompanhar esta equipa na última jornada, isto em princípio, acabando depois por pedir a rescisão do seu contrato”.

Apesar de recordar o “excelente campeonato”, Jean Paul classifica o “final penoso” como “o momento mais desagradável da época”, em que “praticamente todos os jogadores que não eram de Rio Maior recusaram participar no último jogo”.

Em 1981/82, o clube riomaiorense somou 31 pontos, menos 15 que os líderes Alcobaça e Académico de Viseu.

Nos 19 jogos comandados por Jesualdo Ferreira, a União de Rio Maior somou 21 pontos, vencendo sete jogos, empatando sete e perdendo seis.

Na memória comum permanecem os treinos de conjunto, em Rio Maior, com a equipa universitária do ISEF, orientada pelo actual seleccionador português de futebol, Carlos Queiroz.

De acordo com Manuel Marcelino, Jesualdo Ferreira “refinou-se com os anos”: “Mudou, até pela idade, esteve aqui há 27 anos, mas já era um homem firme, um treinador com um conhecimento acima da média… um líder”.

“Mas mal sabíamos que iria atingir o patamar que alcançou”, reconheceu o responsável pela sua contratação para a União de Rio Maior.

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