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A geração de jogadores responsáveis pelas melhores prestações do Gana em Mundiais no início do século XXI continua agarrada à memória coletiva do país, frisa o treinador português Mariano Barreto.

Mundial-2022: Mariano Barreto testemunha aura da geração ganesa de 2010
Mundial-2022: Mariano Barreto testemunha aura da geração ganesa de 2010

“Essa geração ainda é lembrada, não só pelas participações nos campeonatos do mundo da Alemanha, em 2006, e da África do Sul, em 2010, mas fundamentalmente pelo brilho que esses jogadores de elevado nível técnico punham em campo. São autênticos heróis daquela rapaziada”, contou à agência Lusa o ex-selecionador dos ‘black stars’, em 2004.

O Gana estreou-se no principal torneio de seleções há 16 anos, ao finalizar o Grupo E na segunda posição, atrás da futura campeã Itália e à frente de República Checa e Estados Unidos, tornando-se o único representante africano na fase a eliminar, para ‘tombar’ logo nos oitavos de final face ao pentacampeão Brasil (0-3), então detentor do cetro mundial.

Nessa equipa figurava o então avançado Otto Addo, que atualmente comanda o primeiro adversário de Portugal no Mundial2022, num jogo agendado para quinta-feira, às 19:00 locais (16:00 em Lisboa), no Estádio 974, em Doha, em jogo da primeira ronda do Grupo H, três horas após o embate entre Uruguai e Coreia do Sul, também na capital do Qatar.

“Essa seleção foi construída por mim e conduziu-nos à participação nos Jogos Olímpicos Atenas2004. Foi com essa geração de atletas que iniciei a ‘corrida’ ao Mundial2006. Era composta por Asamoah Gyan, Michael Essien, que brilhou no Chelsea, e Sulley Muntari, que seria campeão europeu com José Mourinho [pelo Inter Milão, em 2009/10]”, recuou.

Com um golo nos quatro desafios disputados na Alemanha, Asamoah Gyan acrescentou mais três nos cinco jogos feitos quatro anos depois, quando os ganeses melhoraram com o acesso aos ‘quartos’, juntando-se a Camarões (1990) e Senegal (2002) no lote de melhores campanhas de representantes africanos ao longo das 22 edições de Mundiais.

“O sonho deles é o futebol. Dentro dos países da África Ocidental, o Gana é aquele que tem uma qualidade de vida relativamente agradável, apesar de algumas dificuldades. A forma que a malta nova e os seus pais viam para poderem ter uma vida melhor passava por serem jogadores”, notou Mariano Barreto, que também passou por Angola e Etiópia.

No primeiro e único torneio ocorrido no continente africano, a equipa treinada pelo sérvio Milovan Rajevac suplantou Austrália e Sérvia para se impor como vice-líder do Grupo D, atrás da Alemanha, defrontando o Uruguai após afastar os Estados Unidos nos ‘oitavos’.

“Daí que, para o Gana e para os ganeses, a sua seleção é uma coisa muito difícil de ser percetível em outros contextos. É o passaporte para a vitória. A maneira cuidadosa como falam dos seus jogadores é única. Quando sobe ao campo, essa seleção não representa sucesso, mas cada um dos milhões de ganeses que vivem dentro e fora do país”, frisou.

Aos 120 minutos, com 1-1 no marcador, o avançado uruguaio Luis Suárez parou com as mãos um cabeceamento de Dominic Adiyiah em cima da linha de golo e foi expulso pelo árbitro português Olegário Benquerença, deixando o Gana à beira do acesso às ‘meias’.

Esta proximidade, porém, esbarrou na trave da baliza, com o penálti de Asamoah Gyan a gerar um dos momentos mais dramáticos no passado recente dos Mundiais, relegando a decisão para a ‘lotaria’, onde a maior eficácia ‘celeste’ desfez o ‘sonho’ do Gana.

“Não foi o melhor jogador do mundo porque, se calhar, naquela altura não havia tantos conselheiros ou pessoas próximas que o pudessem ajudar a escolher o clube certo para evoluir. É um dos melhores avançados que se deambularam pelos relvados”, ressalvou Mariano Barreto, sobre um dianteiro que sobressaiu por Udinese, Rennes e Sunderland.

Impulsionado pela inédita conquista do Mundial de sub-20, em 2009, o Gana disputou a terceira fase final seguida em 2014, com Asamoah Gyan a adicionar dois tentos em três jogos para elevar o estatuto de melhor goleador africano de sempre na prova, com seis.

Um deles deu-se na derrota face a Portugal (1-2), na terceira e última ronda do Grupo G, que ditou a saída das duas seleções do Brasil, após os africanos terem ameaçado faltar ao jogo, exigindo receber da federação local o prémio de participação em dinheiro vivo.

Recordista de golos pelo Gana, ao somar 51 em 109 internacionalizações, entre 2003 e 2019, Asamoah Gyan esteve pela primeira vez acompanhado em simultâneo de André Ayew e Jordan Ayew, influentes irmãos que integram a convocatória de Otto Addo para o Qatar.

“Apesar de serem grandes referências no país, os irmãos Ayew não são quem merece maior reflexo nos jovens. Os grandes nomes de que hoje se falam são Samuel Kuffour e Asamoah Gyan”, identificou Mariano Barreto, que regressou ao Gana em 2021 para uma experiência fugaz no Asante Kotoko, campeão em título e clube mais laureado do país.

Filhos do ‘lendário’ Abédi Pelé, campeão africano em 1982 e melhor atleta do continente entre 1991 e 1993, juntam 194 jogos e 42 golos pela seleção, sendo que o capitão André Ayew (Al-Sadd) superou Asamoah Gyan como recordista de internacionalizações (110).

“O Jordan Ayew é encarado hoje como uma grande estrela, porque é atacante e joga no Crystal Palace, de Inglaterra. O André é visto sempre como um jogador sereno e o líder”, terminou, falando dos sobrinhos de Kwamw Ayew, que atuou por União de Leiria, Vitória de Setúbal ou Boavista, além de ter sido campeão nacional pelo Sporting, em 1999/00.

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