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Artigo de opinião de Gil Nunes.

Portugal: Bem-vindo de volta, Melhor do Mundo!
Portugal: Bem-vindo de volta, Melhor do Mundo!

Um início meteórico que alavancou uma carreira que, de forma indiscutível, o transformou num dos melhores jogadores de todos os tempos. Cristiano Ronaldo. Nesta história do real “país das maravilhas”, só faltava mesmo a cereja em cima do bolo: um ocaso em que o desequilíbrio passa a equilíbrio. O individual passa a coletivo. Em que o justíssimo e planetário protagonismo se expressa também no padel ou num canal do Youtube que bate recordes de audiência. Sinal de que quem o rodeia sabe o que faz. Sempre no centro das atenções, de uma forma positiva e ponderada. E, de futebol falando, o que Cristiano Ronaldo fez em Varsóvia devia ser exibido nas universidades de todo o mundo.

Acabaram-se as “Eslovénias” e os livres perto da linha de fundo, com uma probabilidade de êxito quase próxima do zero. Veio a consistência de, no final do primeiro tempo em Varsóvia, se debater e consensualizar que Bruno Fernandes estava em melhor posição para alvejar a baliza contrária. Ou então, com o mesmo interveniente e no início do segundo tempo, realizar um passe altruísta que só um surpreendido Bruno Fernandes não deu o melhor seguimento. Acontece. Aos melhores.

Cristiano Ronaldo jogou sessenta e três minutos. De forma impecável. A um ou dois toques. Como pivô ofensivo, definindo uma linha de passe direta (saída de pressão) para Diogo Costa. Ou então colaborando nas tarefas defensivas com a racionalidade de quem sabe ficar e garantir que a transição ofensiva e hipotética finalização poderá naturalmente ficar a cargo de outros. Sem problema.

De arromba. Isto sim é uma exibição à Melhor do Mundo. Isto sim é uma exibição madura, superlativa e coletiva, que felizmente se estendeu ao melhor Portugal de Martinez de que há memória. Com a atenuante a acentuar-se em todo o seu esplendor: é justo dizer-se que Portugal esteve longe de ser a melhor seleção do europeu. É justo. Mas também é completamente justo dizer-se que Martinez esteve muito longe de jogar da maneira que quereria ter jogado. E, agora, o seu orçamento retificativo está a dar frutos, isto dentro de um espectro em que a filosofia do treinador casada com a ideia de jogo não sofreu deturpação.

Em Varsóvia, foi muito português na linha ofensiva para tão pouco polaco. Ou, mudando a ampulheta, mesmo os muitos polacos que pontificaram no último reduto português foram sonegados por uma linha defensiva que soube perfeitamente aquilo o que fazer. Ora, se a turma das quinas muitas vezes defendia com cinco homens, rapidamente se soltava para o “martiniano” 3x2x5, com Dalot a desempenhar um duplo papel de central e de médio ofensivo, e com Pedro Neto a assumir-se novamente como uma espécie de Geny Catano: versão PT: lateral direito de pé trocado – situação sempre imprevisível – com um acréscimo de velocidade de ponta que tornava a transição ofensiva letal pelo corredor direito. E, ao que dá a entender, Pedro Neto tem tudo para ser a continuar a ser a aposta mais firme para aquele setor.

Se a exibição de Renato Veiga surpreendeu pela qualidade demonstrada = tremedeira zero, houve algumas novidades ao nível do meio-campo: uma maior lucidez de construção proporcionada pela entrada de Rúben Neves e o posicionamento mais recuado de Bernardo Silva que, entre outras coisas, possibilitou que Bruno Fernandes subisse muitas vezes para a posição de ponta-de-lança, com Ronaldo a fugir para um dos flancos. Do lado esquerdo, a sociedade mantém-se e renovou os seus estatutos: se joga Nuno Mendes então tem mesmo de jogar Rafael Leão. Ponto. Ora, se Mendes tende para o centro, logo Leão ganha largura e as asas necessárias para um “power” de arranque multiplicado por imparável força física, características que o tornam num produto diferenciado à escola global.

As falhas foram microscópicas. Fosse num bocadinho menos de vertigem ou de displicência na altura da finalização ou, também, num Diogo Costa que, apesar de indiscutível, está una furos abaixo da sua melhor forma (leia-se United + instabilidade no bloqueio dos cruzamentos em Varsóvia), a seleção portuguesa mostrou que o caminho definido por Martinez é para ficar e começa a dar frutos contra formações que, não sendo da primeira linha europeia, apresentam um cardápio de soluções tudo menos banal. Caso da Polónia.

Porque este é o ponto positivo a reter: depois de um europeu periclitante, o pior que poderia acontecer à seleção seria continuar a navegar num trilho aflitivo ou de vitória à rasquinha que traria, por um lado, a dúvida a montante e, por outro, aquela incapacidade de se tomar qualquer decisão em relação á equipa técnica pois vitória escassa não deixa de ser vitória.

Acima de tudo, o bom desempenho na fase de grupos da Liga das Nações representa algo que, independentemente do europeu, sempre se sentiu: bom ambiente de grupo e jogadores que acreditam nas ideias do selecionador. Meio caminho andado. É que pode dizer-se que podia ser assim ou assado mas a partir do momento em que a crença bate à porta, os fantasmas da desconfiança saem pela janela. É esta a recente vitória de Martinez. É por aqui que vais, é por aí que todos vamos. Juntos. Partilha a paixão.

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