Portugal: Para meia constipação meio chazinho basta
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Pode argumentar-se que Martinez não devia ter mudado o onze e que a Escócia era para despachar, tal como se fez diante da Polónia. Pode ser por aí. Mas o “homem” já cá está há quase dois anos e já se sabe como ele pensa: por exclusão de partes, colocando no terreno aquilo que é novo e que poderá resultar ou não. Nunca se sabe. Até se comprovar que é preto ou é branco. É por aí.
Martinez pensa e logo testa. E arrisca muito nesse processo de teste que, verdade seja dita, pode deturpar aqueles que defendem que a seleção deveria ter um onze-base mais ou menos estanque e salpicado com meia dúzia de soluções. Martinez vota no partido que defende ideias contrárias: testar, testar e testar até se perceber onde na realidade reside o modelo que melhor encaixa nas características dos jogadores, sendo que a base dos três defesas terá sempre de estar presente no desenho ofensivo. E, para que tal se personifique, não há qualquer problema em se testarem os diferentes protótipos diante da Chéquia ou da Geórgia. Na fase final do europeu. Ou mesmo diante da Escócia com o apuramento quase garantido. Ou seja, sempre que existe uma frincha mínima, o selecionador aproveita e não deixa de experimentar novos ingredientes para o seu bolo mágico. O mais suculento de sempre.
Depois, Martinez já definiu a sua grande prioridade: vencer o Mundial de 2026. Um cenário muito complicado mas que não é propriamente impossível dado o manancial de qualidade existente e, ao mesmo tempo, dado um trabalho atempado que sacrifica a Liga das Nações num duplo contexto: era preciso limpar a nuvem de desconfiança que pairava na sequência do europeu; depois, trabalhar com tempo define uma melhor preparação de objetivos e, por conseguinte, resulta também numa maior probabilidade de êxito.
Em Glasgow voltaram os cruzamentos em catadupa que, no europeu, cristalizaram o processo ofensivo da equipa. Uma das razões – se calhar a principal – prende-se com a falta de soluções em termos de jogo interior, que se estratifica num meio-campo onde apenas Vitinha procurava novas soluções ou, então, por uma linha de três que não tinha o seu principal municiador Nuno Mendes – puxado para zonas mais avançadas.
Dois fatores a ter em linha de conta: depois de um europeu de arromba, Nuno Mendes passou a ser um dos imprescindíveis da seleção e a sua ausência, leia-se mesmo ausência momentânea do setor defensivo propiciando construção luzidia, provoca um óbice difícil de reparar. Depois, porque um dos principais legados que Martinez está a construir é a plena coabitação entre Mendes e Leão, o que faz com que a ausência de um limite o rendimento do outro e vice-versa.
O jogo de Varsóvia – quase unanimemente tido como o melhor do novo selecionador – trouxe também a novidade de um pivô defensivo – Rúben Neves – dotado de enormes valências ao nível da construção ofensiva, até porque naturalmente é bem tecnicista do que João Palhinha. A boa notícia foi a coabitação plena com Bernardo Silva e Bruno Fernandes, num desenho em que Vitinha tem de ficar de fora mas que, ao mesmo tempo, resultou em cheio perante um adversário apetrechado como é o caso da Polónia.
Diante da Escócia, o que se viu foi uma meia constipação prolongada. Se a linha defensiva, na maior parte das vezes, não possuía o farol Nuno Mendes, a linha média também não conseguia acrescentar a dinâmica necessária em termos de jogo interior, com os alas – sobretudo Conceição – a serem sobrecarregados com serviço fora de horas, o que naturalmente desagua em decisões mais extemporâneas ou nos tais contentores de cruzamentos que não ajudam nada nem ninguém.
Existe ainda uma reflexão a montante: a Escócia é uma equipa que defende com as linhas muito juntas e, naturalmente, também muito recuadas. Por muito que o “modelo Polónia” pudesse ter trazido melhores resultados, também é certo que é necessário aquilatar de que forma a seleção se consegue flexibilizar em termos de potenciação do jogo de corredores, sempre uma arma preciosa para se desmantelarem adversários que constroem a sua fortaleza no último reduto.
Acima de tudo, Martinez aposta no Mundial porque sabe que dificilmente chegará à fase final da Liga das Nações com aquilo que efetivamente pretende em termos do seu modelo adaptado às características dos jogadores portugueses. Mas, por outro lado, Martinez entende que na fase final do Mundial tudo poderá estar mais consolidado e definido. Com a tal lógica de exclusão de partes a separar o trigo do joio. Uma coisa é certa: o resultado do Europeu não satisfez o selecionador. De todo. E sabe que só um Mundial fabuloso o poderá fazer continuar ao leme de uma das seleções mais talentosas do mundo. Uma oportunidade de ouro.


