Euro-2012: A confirmação da globalização no futebol internacional
A globalização é uma realidade inegável dos tempos modernos. Seja na economia ou no futebol, a interação entre diferentes culturas, países e costumes é cada vez mais intensa. Mas foi a olhar para os plantéis das seleções presentes no Euro-2012 que fiquei decididamente convencido acerca desta tendência. Não há volta a dar. Entre jogadores e treinadores, alguns países são autênticas mesclas culturais.
Vamos por partes. Grupo A: Polónia, Grécia, Rússia e República Checa. A formação anfitriã do Euro-2012 procurou alguns talentos com dupla nacionalidade e conseguiu convencer o franco-polaco Damien Perquis a naturalizar-se. O nome destoa dos restantes companheiros, mas o atleta do Sochaux será um titular indiscutível na formação treinada por Franciszek Smuda ao longo da competição. Na Grécia, temos Fernando Santos. O treinador português já passou pelo AEK Atenas, Panathinaikos e PAOK, sendo que foi escolhido para orientar os helénicos na mesma prova que venceram em 2004. Os russos também não confiaram o banco a um treinador nacional. O holandês Dick Advocaat treina a equipa do leste da Europa desde 2010, quando deixou o comando técnico da Bélgica. Por último, a República Checa, que na sua equipa contará com Gebre Selassie, que tem as suas origens na distante Etiópia.
No grupo de Portugal, há igualmente muito que falar a este respeito. Nos 23 escolhidos por Paulo Bento, Pepe fala com sotaque brasileiro, sendo o único resistente do trio canarinho que se naturalizou português há alguns anos, pois Deco e Liedson não foram convocados. Por fim, Rolando e Nani, ambos nascidos no arquipélago de Cabo Verde. Na Alemanha, Ozil e o jovem Gundogan têm ligações à Turquia, Podolski poderia estar a jogar pela Polónia, Khedira pela Tunísia e Jerome Boateng pelo Gana, conforme faz o seu irmão, o médio do AC Milan, Kevin-Prince Boateng. Ao debruçar-me nos nomes dos jogadores dinamarqueses, um deles se destaca no meio dos restantes: Jores Okore. O jovem defesa-central do Nordsjaelland nasceu na Costa do Marfim, mas preferiu internacionalizar-se pela Dinamarca, país que conheceu com três anos de idade. Na Holanda, o nome de Khalid Boulahrouz não esconde as suas origens marroquinas, tal como Ibrahim Afellay, jogador ligado ao Barcelona.
No grupo C, constituído por Espanha, Itália, República da Irlanda e Croácia, há menos exemplos deste tipo. Os espanhóis, campeões europeus e mundiais, parecem apreciar a prata da casa, a República da Irlanda conta com o italiano Giovanni Trapattoni no comando da equipa e a Croácia confia o ataque a Eduardo da Silva, avançado que nasceu no calor do distante Rio de Janeiro. Por seu turno, a Itália conta com o jovem defesa Angelo Ogbonna, filho de pais nigerianos, o médio Thiago Motta, que até chegou a representar os escalões jovens do Brasil e, por último, o controverso Mario Balotelli, filho de imigrantes ganeses.
No grupo D, o maior paradigma desta tendência: a França. Os gauleses apresentam no seu plantel o exemplo mais marcante de multiculturalidade no Europeu da Polónia e da Ucrânia. Na baliza, Steve Mandanda nasceu na República Democrática do Congo, vizinho do Congo, onde veio ao mundo o médio-defensivo Yann M’Vila. O defesa Patrice Evra está ligado ao Senegal, Samir Nasri e Karim Benzema à Argélia, enquanto Adil Rami nasceu em Marrocos. Mas calma, ainda não acabei! Blaise Matuidi remonta a Angola, país onde se fala português, Alou Diarra ao Mali, Ben Harfa à Tunísia e Matthieu Valbuena, imagine-se, tem descendência espanhola. Depois, nas outras equipas, mais alguns exemplos. O jovem inglês Danny Welbeck não é estranho ao Gana e Alex Oxlade-Chamberlain liga-se à Jamaica.
Há quem critique algumas nacionalizações. Todos se lembram como foram polémicos os processos de ‘aportuguesamento’ de Deco e Liedson. A favor ou contra, esta realidade mostra que o mundo é cada vez mais um espaço de todos e para todos, em que as fronteiras são, na maioria dos casos, meros acessórios. Mas isso trará mais responsabilidade e compreensão para se viver em comunidade e aceitar as diferenças de outros povos e culturas. O futebol pode dar o exemplo, no Euro-2012 torcerei para que isso aconteça!


