FC Porto: Vacina contra o quase vírus de Santa Eulália
Artigo de opinião de Gil Nunes.
A primeira curva da Taça de Portugal tem tudo para ser um processo avassalador de seguir em frente. Tudo limpinho. Mas o problema reside na eventualidade (leia-se quase imponderável) de tudo descambar e o que poderia ser uma vitória retumbante transformar-se num terrível cenário de destruição imediata de um dos objetivos internos da temporada.
Há duas temporadas, o Benfica entrou mansinho diante do Caldas e quase deitava tudo a perder. Aliás, só mesmo nas grandes penalidades é que tudo se resolveu e o assunto foi devidamente arquivado. Mas nuvem batida não é recolhida e, mesmo aí num Benfica Schmidt em período de gáudio, ficaram patentes vários sinais de receio em relação ao processo de rotação da equipa e de uma cristalização tática já a pontificar diante dos holofotes.
Aconteceu o mesmo ao Sporting – diante do Varzim – na mesma temporada. E o FC Porto também tem alguns episódios no museu: desde logo em 2012 – Vítor Pereira era o treinado- quando os dragões realizaram um jogo sensaborão diante do Santa Eulália que só foi resolvido através de um golo repenicado e aos trambolhões de Danilo. Um quase susto. Um atestado de inércia e passividade. “Laissez faire, laissez passer” que correu bem.
É que, verdade seja dita, é muito difícil encontrar-se motivação para se defrontar um adversário de divisões secundárias. No caso do FC Porto, havia ainda uma condicionante invisível: evitar que o Sintrense se transformasse numa espécie de Bodo/Glimt, em que a rotação efetuada não teve os melhores resultados em termos práticos.
Neste xadrez, entra em campo um dos protagonistas da partida: Galeno. Mais do que evidenciar as suas qualidades individuais, importa sublinhar que, do rol dos extremos que compõem o plantel, não há como Galeno e Pepê em termos de reação à perda, pressão alta e início consolidado do processo defensivo. Daí que, mesmo diante do Sintrense, importa não facilitar. Vai Galeno a jogo. Com outro sublinhado no bloco de notas.
É que Galeno pode ainda render muito mais. À semelhança do que aconteceu nas temporadas passadas, o extremo brasileiro tem sido puxado para zonas centrais, de finalização, com o intuito de se continuar com o seu processo de “Ronaldização”. Ora, se Galeno é capaz em termos de jogo aéreo, é rápido, tem bom arranque e responde de forma hábil no que à finalização diz respeito, não há nenhuma razão para não ser puxado para o centro e, por conseguinte, para ter mais golos no seu curriculum. Até de forma espetacular como aconteceu diante do Sintrense. Este processo, de capitalização das valências de Galeno para zonas centrais, proporciona naturalmente uma exponenciação dos corredores e do papel dos laterais nessa mesma dinâmica.
É claro que o jogo diante do Sintrense contou com mais capítulos. Desde logo a estreia de Tiago Djaló, coroada com um golo na sequência de um pontapé de canto. Por muito que Zé Pedro venha a cumprir em termos defensivos a acrescente muito na dimensão da construção, certo é que um FC Porto puxado para a frente necessita de um jogador hábil a recuperar e que consiga colmatar, de forma eficiente, possíveis crateras que surjam à retaguarda.
Outro nome que está no topo das prioridades é o de Fábio Vieira. Por várias razões mas sobretudo uma: o timing de definição. Quase perfeito. Em boas condições, um foco de alimentação constante. A sua colocação ao lado de Alan Varela, em zonas supostamente mais recuadas, dá asas ao pensamento especulativo: ora, se um avançado como Samu necessita obrigatoriamente de latifúndios à sua frente, nada como fazer recuar Fábio Vieira e fazer com que a definição possa, de forma indireta, providenciar todo esse espaço e rentabilizar as características do avançado espanhol.
Por outro lado, pontifica também a lição de Bodo. É que rodar é muito giro e faz com que as segundas linhas caminhem na direção das primeiras mas, nesta altura, nada como ter cuidados e caldos de galinha. Por isso, Alan Varela entrou de início. Porque qualquer edifício necessita da solidez do seu melhor pilar. Para que todos os outros possam girar ao seu redor.
Com mais ou menos mimo, certo é que Fábio Vieira tem o tal fator x. A característica diferenciada muito difícil de encontrar. E o seu retorno aos dragões deve-se muito à vontade de construção de eixo Vieira -Samu extremamente difícil de replicar dado o ADN quase único de ambos. O que, em dupla, poderá ser quase uma agulha no palheiro dourado. A diferença. A grande diferença.


