Portugal: Espalha-brasas. Mas ao contrário
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Depende das brasas, de como as mesmas se espalham e, sobretudo, depende também de onde as brasas se encontram naquele preciso momento. Bem ou mal, ganhou o rótulo. Francisco Conceição. Esteve em grande diante da Finlândia, mas, sinceramente, exaltar a sua capacidade técnica quando do outro lado está uma seleção débil até nem é o maior dos elogios. Neste caso, o mundo deve girar ao contrário. Frio do verão em vez de calor no centro do iceberg.
Resiliência expressa na forma como conquista a grande penalidade, agressividade na transição defensiva (ou quando erra) e a forma como usa a criatividade em prol da equipa, potenciando a criação de linhas de tiro que, com Bruno Fernandes em campo, casam que nem cerejas no gelo. Ou seja, se calhar a definição de espalha-brasas continua a ser válida em face da capacidade de desequilíbrio que apresenta (e que poderá ser muito útil nos jogos grandes) mas o pendor associativo que demonstrou, em consonância com a perceção imediata de onde poderiam estar as linhas de tiro, fazem de Francisco Conceição um sério candidato a ser mais do que o espalha-brasas da equipa. Nem espalha nem brasas. Apenas um jogador cheio de atributos.
Porque Portugal tem um dos melhores “triplistas” do mundo: Bruno Fernandes. É certo que aporta muito mais do que isso ao jogo da seleção, mas tal capacidade deve ser exponenciada em permanência pela mais elementar razão do mundo: resolve jogos. Resolve a coisa. Sobretudo em jogos de grandes competições, mais vale uma pedrada certeira do que todos os passes do mundo. Só há uma baliza para almejar.
Por falar em passes, a exibição de Vitinha foi superlativa e, de um modo geral, assenta nos mesmos pilares robustecidos por Francisco Conceição. Criatividade, permanentes linhas de passe, muita desenvoltura e visão de jogo mas, ainda assim, um aspeto de superior relevância: a capacidade de rápida recuperação em zonas altas o que proporciona, de forma elementar, que o jogo não necessite de regressar à primeira fase de construção para chegar ao último terço, colocando indiretamente os criativos mais em jogo. Sempre em serenos sobressaltos.
Para lá dos destaques individuais, há duas questões principais que advêm do jogo frente à Finlândia: em primeiro lugar o facto de Portugal se habituar (ou consolidar) na posição de dominador, contexto que vai ser fundamental quando temos pela frente Chéquia, Turquia e Geórgia. Depois, porque a seleção que entrou de início apresentou uma média de idades de 25 anos. Sim, porque para lá do resultado imediato, o papel do selecionador é também o de garantir a sustentabilidade futura, não numa lógica de distribuição avulsa de internacionalizações, mas antes respondendo positivamente a um paradigma em que se pretende uma seleção forte e coesa no eventual e inevitável pós-Martinez.
Se, tal como aconteceu frente à Suécia, Portugal voltou a sofrer dois golos em casa e o problema não parece residir numa alergia à Escandinávia, importa reter que o problema se desdobrou: em primeiro lugar um abrupto desligamento do ritmo de jogo após o terceiro golo (situação que deve ser acautelada pois quem anda à chuva molha-se); depois, alguns problemas em termos de transição defensiva e coordenação dos centrais no mesmo processo, algo que se pode revelar preocupante porque, valha a verdade, os avançados finlandeses não são os mais temíveis do mundo. Nessa perspetiva, há uma nota que se salienta do bloco de Martinez: a necessidade de se compaginar a inevitabilidade que é a redução dos ritmos de jogo com a obrigatória organização, para que a seleção nunca seja uma fera quando está em alta rotação e um gatinho quando o jogo pede um motor menos potente.
Se os adversários que se seguem – Croácia e Irlanda – apresentam o paralelo com o que pode acontecer durante a fase de grupos, há sempre um duplo caminho: o da ambivalência – quando os testes são demasiados e não se consegue consolidar um padrão de jogo que é essencial num curto espaço de tempo; e o do equilíbrio fundamentado com a tal sustentabilidade que é necessária para que a seleção seja sempre o topo de uma pirâmide composta, na sua maioria, pelos respetivos escalões de formação. Em constante alimentação.
Seja como for, o positivo que se retém é a facilidade com que Portugal cria situações de golo dentro de um contexto onde os jogadores se sentem confortáveis, e mesmo os jogadores da linha defensiva (sobretudo os laterais) estão, na sua maior parte do tempo, numa posição de ataque assumido ao último reduto adversário. Seria, por isso, um contrassenso optar-se por um regime de prudência, mesmo num contexto de laboratório onde todos os problemas são bem-vindos.
Se Matheus Nunes no lugar de Otávio também traz a boa novidade de um elemento mais propicio à transição ofensiva violenta/entrada eficaz no último terço, a seleção portuguesa aproveita o pendor emocional para se consolidar junto do 12º jogador. O adepto. Com a dúvida de como reagirá diante dos tubarões? A questão é que os euros, às vezes, têm destas coisas: o mar é tão surpreendente que os afasta a todos. Nunca se sabe. Por isso, o melhor mesmo é só escrever três palavras: Chéquia, Turquia e Geórgia.


