
Artigo de opinião de Gil Nunes.
É um dos principais problemas do futebol português: a falta de uma classe média suficientemente capaz de entrar com naturalidade na fase de grupos Liga Europa ou da Liga das Conferências. Acima de tudo, o contexto e a mentalidade. Razão teve o Arouca quando, na temporada passada, se revoltou contra o facto de não ter existido transmissão televisiva no jogo da segunda mão da eliminatória diante do Brann. Sendo que os noruegueses, dotados de um orçamento quatro vezes superior, acabaram por eliminar a equipa portuguesa.
Algo que não pode acontecer. Ou pode acontecer esporadicamente e nunca como regra. Se, para qualquer um dos grandes, o Brann seria uma presa fácil, não há qualquer tipo de argumento que justifique a existência de um fosso competitivo tão grande e que engula com facilidade o grosso da coluna. Se o campeonato português é superior ao dos Países Baixos, não faz sentido que o AZ Alkmaar despache o Gil Vicente depois de dois jogos em que foi indiscutivelmente superior. Sim, sem dúvida. Sim, aqui está o problema. Será que Benfica, Sporting ou Porto não eliminariam o AZ Alkmaar com maior ou menor dificuldade?
E também sim, mais mediatismo precisa-se. É urgente. É justo. Até pelo próprio fio condutor de uma narrativa que nunca termina no epílogo da temporada: se as equipas se qualificam para as competições europeias, então qualificam-se para uma prova regular e estendida a vários meses. E não o que acontece agora: dois ou três jogos e tudo de volta à cartola da liga portuguesa já em agosto.
Também é certo que, ao nível dos clubes, também pode ser feito mais e melhor. Precisa-se de olhos esfomeados, capazes de ultrapassarem as agruras e tomarem os adversários europeus, embora menos mediáticos, como autênticos predadores e “inimigos” à espreita. Transformar as eliminatórias em finais. Pegar nos microfones e vociferar por um maior mediatismo e interesse generalizado. Tal como o Arouca fez. E bem.
Para os lados do Parlamento de Guimarães, há uma frase que ilumina o castelo: temporada iniciada, equipa técnica mudada. Se, nestas coisas (saída de Álvaro Pacheco), nunca se vai saber quem teve razão ou deixou de ter, há uma conclusão que reina: com exceção da temporada passada, mais uma vez o técnico muda, algo que não contribui para a estabilidade de um clube com capacidade humana e desportiva para se assumir como o quinto grande ou mesmo algo mais. E, nestas coisas, também não está em causa a competência de um técnico – Rui Borges – que transformou o Moreirense da temporada passada numa das mais interessantes equipas da liga.
Seja como for, mudou o técnico e mudou também o figurino de jogo. Regresso a uma linha de quatro defesas e exponenciação de uma equipa ofensiva e com alas (Mangas e Jota Silva) que são dínamos da equipa. Na frente, a luminosidade só se recuperou após a entrada de Chucho Ramirez: recuo estratégico e assistência precisa para o golo felino de Jota Silva. Se os vitorianos apresentaram algumas falhas no início (brinde de Alberto Baio quase que dava golo aos malteses), na segunda parte prevaleceu a natural lei do mais forte, com o esloveno fantasma Celje a fazer aparição pedagógica: todos ao Dom Afonso Henriques. Para a semana. Vamos ter final. Facilitismo zero.
De facilitismo a favoritismo, e de favoritismo a ansiedade na primeira parte. Já em Portugal, os bracarenses são claramente superiores aos israelitas do Maccabi Petah Tikva e o resultado até que peca por escasso. Muito embora as dinâmicas sejam diferentes, Daniel Sousa foi ladino ao aproveitar uma pequena sociedade (Moutinho e Zalazar) que funcionou em pleno na segunda metade da temporada passada. Sim, até porque o problema do Braga sempre pontificou lá atrás. Sobretudo na zona central. E a aposta inicial até parece ser a mais segura: a Serdar falta lapidar o potencial para se tornar porto seguro; e a Diakité (esquerdino) falta elevar os níveis de concentração para não cometer falhas individuais gritantes (Union de Berlin em casa no topo da lista). Porque, de resto, o problema até que tem condições para ser resolvido de forma pronta. A curto-prazo. Sem fantasmas ou aparições.
Até porque o Braga continua a primar pelo talento individual, e deve aproveitá-lo em conformidade para seguir a ser uma equipa tremendamente perigosa do miolo para a frente. No lance do primeiro golo, o desequilíbrio provocado por Bruma capitalizou Ricardo Horta, por sequência, para uma zona onde se sente particularmente à vontade: a zona de tiro. Onde faz a diferença. Aquele que é o melhor marcador de sempre dos arsenalistas continua com o seu duplo legado: rendimento imediato; e passadas firmes para se tornar num símbolo do clube.
E a conclusão minhota é simples de se fazer: em condições normais, em condições de máxima concentração, Braga e Vitória vão ultrapassar os seus adversários. Agora, é tempo dos minhotos fazerem o mesmo que Rúben Amorim fez no Sporting no final da temporada passada: eliminar os imponderáveis. Ter um discurso ambicioso mas também salpicado de prudência. Afinal um vermelho pode deitar tudo a perder; ou mesmo lesões em cima de jogadores fundamentais, que já seguram o edifício que está em construção. Porque, clinicamente falando, israelitas e malteses nada têm a perder e será um feito se eliminarem o duo minhoto. Sendo que ao contrário será tudo uma questão de normalidade. Resta ser como o tempo de verão: quase, quase, quase sempre sol.