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FC Porto: Três tigres trigos ou treze tesouros

Artigo de opinião de Gil Nunes.

FC Porto: Três tigres trigos ou treze tesouros
Reprodução / Futebol Clube do Porto

Por muito que Vitor Bruno, na entrevista pós-jogo, elenque e com razão os três grandes mais os rivais do Minho como obstáculos prioritários, há algo que não pode ser escamoteado e que se revela como o principal eixo traumático da temporada passada: a perda, em catadupa, de pontos diante das ditas equipas mais pequenas. Isto para já não falar das vitórias in extremis que devem acontecer em casos excecionais e nunca por sistema ou hábito. O trigo ocupa posição de destaque mas é escasso em relação ao joio que realmente interessa nas contas finais. O decisivo e precioso joio. Ou treze joios. Treze tesouros.

Todo um contexto e todo um novo posicionamento de Nico González. Mais próximo da linha ofensiva, em apoio fixo e regular ao ponta-de-lança. Nunca se sabe, nunca se saberá: se a deslocação de Nico para zonas mais propensas à finalização foi ideia de Vítor Bruno ou se já vinha de trás. E agora só se está a dar seguimento. Seja como for, brincar ao “verdade ou consequência” tem dado bons resultados: Nico foi determinante diante do Al-Nassr. E, ao que tudo indica, continuará a sê-lo.

E Nico solta-se no momento apropriado e em face de uma evidente lacuna: a falta de um médio capaz de gerar o desequilíbrio necessário para “escarafunchar” a linha defensiva contrária e, com isso, trazer o aporte quer entrelinhas quer de criatividade que o FC Porto carecia. Porque, por muito que o jogo diante do Sporting seja a prioridade imediata, há muito trabalho a fazer em relação ao desmantelamento de blocos muito baixos, muito densos, que tornaram os dragões repetitivos e inconsequentes quando tinham de bater adversários à primeira vista tidos como inofensivos.

Tal raciocínio não turva uma realidade passada: o FC Porto de Sérgio Conceição era uma equipa notável no seu processo coletivo, assente num conjunto de dinâmicas que a tornavam, inclusiva, multifacetada na forma como abordava o jogo. Ou, esticando o raciocínio e batendo de frente com o iceberg, perfeita demais. Ou seja, dava aquela sensação de que a equipa, mesmo que de forma involuntária, rejeitava o caos e, com isso, enxotava também a criatividade que advém dessa própria nuvem de caos em devida cápsula de controlo coletivo. A perfeição, para além de não existir, é já de si um grande defeito.

Nas entrelinhas do discurso de Vítor Bruno e mesmo no substrato dos elementos que compuseram o onze diante do Al-Nassr (para além de Nico, destaque para a maior liberdade de Iván Jaime e de Gonçalo Borges), percebe-se que o desafio passa por aí: humanizar o dragão robótico. Ou dar-lhe um coração solto no peito, para que o mesmo não perca as suas linhas de referência e possua sempre aquela pitada de irreverência aqui ou acolá. No momento certo ou mesmo no incerto. Tanto faz. Desde que as dinâmicas coletivas garantam o seguro necessário. Sobretudo à retaguarda.

Daí que o rendimento de Nico – pelo menos de acordo com este primeiro desenho – esteja sempre dependente daquilo que a sala de operações Grujic-Varela consiga produzir. Por aqui um possível hiato: é sempre contraproducente quebrar uma sociedade tão frutífera como aquela que foi protagonizada por Varela e Nico, sobretudo diante de equipas mais capacitadas do ponto de vista técnico. Diante dos tubarões. Mas o FC Porto de Vìtor Bruno parece andar aos círculos: o joio prioritário em vez de um conjunto de trigos que cabem na palma da mão.

Muito se fala do “ouro da casa”, que está a ser blindado de forma conveniente e exemplar por uma nova direção que, acima de tudo, teve o mérito de restabelecer a tranquilidade e garantir a união necessária dentro e fora do clube. Sobre os jovens, mais vale estabelecer cláusulas (e regras de saída) de antemão, antes que a instabilidade contratual dê de si e o ouro vá parar a outra ourivesaria a custo zero. Mas existe uma salvaguarda que deve ser capitalizada acima de todas as outras: lançar jogadores jovens, sem rede de segurança, é condicioná-los à nascença. E o melhor exemplo é mesmo Francisco Conceição: foram tempos de azia, horas passadas no banco, antes de se ter a certeza de que a sua entrada no onze teria grandes probabilidades de ser definitiva e perene. Rumo à seleção nacional.

Se a permanência de Francisco e de outras joias é sempre sinónimo de turbulência até ao último dia do mercado, para Vitor Bruno será sempre um jogo de xadrez. Ou seja, numa particular fase em que a estrutura do edifício deve ser calculada ao milímetro, a aposta no cimento sombrio pode sobrepor-se ao fantástico efémero. É claro que o mercado a todos afeta mas, nestas situações, geralmente não triunfa o melhor. Geralmente não triunfa quem realiza vendas hiperbólicas e faz mirabolantes compras de sprint final. Ganha quem melhor se adapta. Ponto. E as ligas também se ganham no seu início. Através da coleção de preciosos joios que, no mês do maio, definem a classificação final. Assim, há duas temporadas, venceu o Benfica. Lição.

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