
Artigo de opinião de Gil Nunes.
É muito difícil acreditar que alguém receba um convite abrupto para treinar o Braga e o aceite num espaço de três minutos. Ou 180 segundos. Sem qualquer tipo de censura em relação a uma afirmação que, acima de tudo, é genuína em toda a sua componente “gverreira”, certo é que nas entrelinhas se percebeu uma coisa: Carlos Carvalhal estava no congelador para o que desse e viesse. Adivinha-se que, bem antes do convite oficial, Carlos Carvalhal já tivesse sido contemplado com um voucher de regresso, isto na senda de que Daniel Sousa estava prestes a ser rotulado como “erro de casting”.
Houve “gato”, e dos grandes, entre António Salvador e Daniel Sousa. O que até é legítimo: quando se contrata um treinador contrata-se uma ideia de jogo, mas também se contrata um individuo e os seus ideais, feitios e idiossincrasias. Por aí compreensão em relação à atitude tomada por António Salvador: tal como acontece nas relações humanas, mais vale romper no início e antes que as raízes estejam sólidas e, por conseguinte, mais difíceis de arrancar. Ainda por cima quando, por detrás da cortina, está um técnico da indiscutível qualidade de Carlos Carvalhal, cujo conhecimento de jogo e da equipa é total e absoluto. Por aí nada a dizer.
Se Daniel Sousa foi empurrado borda fora sem qualquer derrota em jogos oficiais, havia algo de preocupante em relação à equipa: exibições deficitárias e que podiam deitar tudo a perder, sobretudo numa equipa com irreversível chancela de equipa grande e que tem, obrigatoriamente, de estar nas competições europeias desta temporada. Ponto. Como vai estar.
Diante do Servette, colocação do “resultadismo” acima de todas as demais prioridades. E tentativa de eliminação de um vírus preocupante: as periclitantes transições defensivas que, na Pedreira, colocaram os suíços mais próximos da próxima ronda do que o Braga. A colocação de Vítor Carvalho no onze – hábil na construção mas com perfil mais defensivo e próximo dos centrais – serviu para se estancar a hemorragia e, de forma indireta, para se deslocar Zalazar para o corredor direito do meio-campo. Com o desafio do equilíbrio e do bom senso em cima da mesa: sim, era necessário ser prudente e contundente na abordagem; mas, por outro lado, sempre com a realista consciência de que o Braga é muito superior ao Servette e que, em condições de normalidade, iria ultrapassar a eliminatória. Como veio a acontecer.
No escalpe do jogo, algumas notas curiosas: por várias vezes o Braga tentou sair a três, fazendo recuar Marín para a zona dos centrais; por falar em centrais, curioso como o ponto mais débil da temporada passada é, atualmente, um dos mais fortes – a contratação de Arrey-Mbi parece ter sido em cheio: tremendo na marcação e tranquilo no processo de construção (muito embora lhe pareça faltar alguma verticalidade), foi determinante no lance do primeiro golo: recuperação e disponibilização rápida para uma transição ofensiva que, não tendo sido perfeita, foi eficiente para explorar as debilidades de reposicionamento do adversário e desaguar em golo.
Se, após a lesão de João Moutinho, o reposicionamento de Zalazar permitiu uma melhor ligação entre os setores, a equipa também se expôs no processo defensivo. E, pelo lado direito da defesa, algo voltou a falhar: os sucessivos erros individuais de Victor Gomez causaram algum alvoroço, refletidos quer na melhor situação de golo dos helvéticos (início da segunda parte), quer num conjunto de abordagem deficitárias que proporcionaram a consolidação de uma pequena cratera no último reduto arsenalista.
A inteligência é valiosa e decide jogos. E a chegada de Carlos Carvalhal será, certamente, a melhor notícia do mundo para Ricardo Horta, que fica assim novamente vinculado a um técnico que o conhece e potencia na perfeição. Porque Ricardo Horta até pode não tocar muito na bola mas quando o faz gera um conjunto de desequilíbrios que são determinantes. No lance do primeiro golo, a solicitação rápida a Vitor Goméz há muito que já estava desenhada na sua cabeça, bem como a deslocação de El Ouazzani para a zona central; depois, no lance do golo de Roberto Fernandez, mesmo a forma como temporizou para permitir o povoamento da área /criação de linhas de passe, é típica de quem tem futebol na cabeça e nos pés.
Se o futuro do Braga é risonho? Pelo menos, é aliviado. A qualificação para o play-off da Liga Europa permite aos arsenalistas terem jogos europeus de forma regular. Pelos dois lados, retirando os extremismos e privilegiando os equilíbrios: se a conquista da Liga Europa será sempre uma utopia, a não participação numa prova europeia seria um rude golpe num clube em trajetória de pleno crescimento e dotado de infraestruturas ao nível do melhor que há.
Os próximos tempos prometem ser de serenidade e de clarificação de algumas dúvidas: a situação de Banza, sempre um eixo de desequilíbrio e de referência na frente de ataque; a constatação de que os laterais parecem ser o ponto mais fraco da equipa – a equipa carece das arrancadas de Borja e necessita de uma maior solidez defensiva pelo lado oposto. É claro que Carvalhal sempre pode recrudescer o sistema de três centrais, sendo que a sua afinação e consubstanciação leva um intervalo de tempo que o Braga não dispõe de momento. E, por último, saber até que ponto as segundas linhas podem ser credíveis, sobretudo ao nível de um meio-campo que, obrigatoriamente, vai precisar de rotação permanente. Seja como for, Carvalhal nunca será um erro de casting. Veio para ficar. E, pelo menos, o Braga já não vai ver na incerteza de que pode mudar de técnico a qualquer momento. A qualquer minuto. Cimento Carvalhal.