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Braga: Os violinos Horta

Artigo de opinião de Gil Nunes.

Braga: Os violinos Horta
Depositphotos

Se a ascensão que o Braga registou nos últimos anos se deveu a um múltiplo conjunto de fatores – aposta determinante nas estruturas físicas e qualidade dos corpos técnicos – é também evidente que o “tudo” só faz realmente sentido se a parte emocional estiver devidamente conectada. Caso contrário, o carrossel do caos instala-se.

Daí a necessidade do jogador que personifique a marca de forma permanente. Para lá da carreira. Alan. O dito símbolo. Nas últimas temporadas, o rendimento dos irmãos Horta (sobretudo o de Ricardo) acompanhou a caminhada de um clube que, quase de forma evidente, conquistará a liga portuguesa num futuro próximo.

O que representa uma virtude mas também um perigo à espreita: necessária inteligência e ponderação para se jogar com todas as variáveis de um processo de desenvolvimento que, conforme a Natureza ensina, contempla pequenos passos atrás antes de se consolidar um ou dois passos à frente. Há, nesta equação, uma componente que pode deitar tudo a perder: a ansiedade. A sofreguidão de se tentar transformar o inevitável (conquista da liga) em imediato, o que pode desaguar em dois domínios: a eventual conquista da liga como epifenómeno e sem replicações nos anos que se seguirem; ou, por outro lado, a sofreguidão descontrolada que tornaria o Braga numa espécie de equipa do “quase lá” e “para o ano é que vai ser”.

Nessa trajetória de desenvolvimento, há algo que não pode ser escamoteado: a participação regular nas provas europeias. Por outras palavras, não é obrigatório que os arsenalistas vençam a Liga Europa, mas seria um “golpezinho” participar apenas na Liga Conferência; e seria um trambolhão não participar em prova nenhuma, situação que não pode ser compaginável com o atual quadro competitivo que o Braga apresenta.

Por aí também se justifica a súbita decisão de António Salvador de prescindir de Daniel Sousa e “recuperar” Carlos Carvalhal. Que já estaria pré-avisado e preparado. Isto porque o destino dos arsenalistas sublinha-se agora, neste preciso mês de agosto. Não há margem de erro possível nem tão pouco a possível hipótese de criação de uma miragem de equipa que até podia ser muito interessante mas, na realidade, não rende o suficiente. É claro que as mudanças representam sempre uma onda. Sendo que uns passam a surfar (André Horta) e outros caem da prancha (Simon Banza, por motivos disciplinares).

No caso específico de André Horta, uma reflexão básica: é que pode acusar-se um jogador de falta de reação à perda. Da dita falta de intensidade na altura do reposicionamento defensivo. De uma série de carências relacionadas com a transição defensiva e natural ligação com as necessidades da linha defensiva. Mas há algo que se sobrepõe: a velocidade de pensamento. A criatividade e a execução rápida dessa mesma criatividade em termos de processo de jogo.

Perante um Rapid de Viena que, no fundo, foi quase a mesma coisa com mais ou menos um em campo – nove jogadores atrás da linha da bola são sempre nove jogadores atrás da linha da bola - o efeito André Horta deu um novo colorido aos mecanismo da linha ofensiva. Sobretudo ao nível dos benefícios indiretos proporcionados: a entrada de André possibilitou a presença de Ricardo mais próximo da linha avançada (em apoio mais concreto a Fernandéz) e, também, a movida de Zalazar para zonas mais destinadas aos processos de finalização/tiro.

Sim, são necessários jogadores destes em todas as equipas. Até porque o desequilíbrio se reflete de diferentes maneiras: se, no FC Porto, a eficácia no um contra um é uma arma poderosa personificada no campo de ação de Francisco Conceição, no caso do Sporting o poderio física exponencia-se em Gyokeres e nas suas cavalgadas imparáveis. Depois, há também a questão da gestão do tempo: porque André Horta até pode não ser a solução mais efetiva e consolidada para os noventa minutos, mas há sempre algo de fulcral que acrescenta durante um intervalo de tempo, seja ele mais ou menos proeminente.

Por isso, a decisão de Carlos Carvalhal é compreensível e inteligente. O confronto diante do Rapid de Viena servir para se provar – ou voltar a provar – que os jogadores dotados de velocidade superior de pensamento têm obrigatoriamente de constar dos planteis e nunca como solução de emergência. Até porque o Braga, com o seu ADN de equipa grande, atua na maior parte do tempo na posição de dominador ao nível da liga portuguesa, com necessidades de desmantelamento de blocos muito baixos e de soluções fora da caixa.

Em termos de calendário, a próxima semana será decisiva. E justifica-se uma ligeira sobreposição da prioridade europeia em detrimento de uma competição nacional que, valha a verdade, pode eventualmente ser ajustada com o tempo. Ou, por outro lado, a colocação em campo do espírito olímpico: não há maior motivação do que demonstrar ao próprio grupo que é capaz de ultrapassar todas as tormentas – mesmo aquelas que se apresentam de três em três dias. Braga dos novos tempos. Braga à grande.

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