
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Diz o ex-presidente Luís Filipe Vieira que Rui Costa não tem pinta de gestor: são as contas no vermelho e ratificadas, ao que consta, num histórico passivo de 483 milhões de euros; e é um cenário desportivo que não é o mais otimista de sempre. Mais uma vez a razão de Pinto da Costa: ninguém comemora eliminações do passivo ou então celebra a razão deste em detrimento da culpa daquele. Um clube vive de títulos. E de vitórias.
E Luís Filipe Vieira até nem tem razão em tudo aquilo que disse: mas afinal quem iria adivinhar que Gyokeres iria explodir da maneira que explodiu? E, para além disso, há também outra reflexão particular: se Gyokeres tivesse sido contratado para o Benfica de Schmidt, no meio de tanta rigidez tática e de um desenho basilar estanque de 4x2x3x1 gegenpressing, dificilmente (leia-se certamente) teria tido o impacto que teve no Sporting.
Porque Gyokeres triunfa no Sporting porque, acima de tudo, teve um treinador que soube montar a equipa à sua volta e despoletar um conjunto de nuances que tornam o sueco num caso único de explosão, exploração de profundidade e aproveitamento máximo do seu potencial físico. Acontece que o Benfica de Schmidt sempre pensou de forma contrária: Aursnes e Kokcu como bombeiros de serviço, atuando em face das lacunas da equipa e nunca com o intuito de desenvolvimento dos respetivos potenciais. E só para dar dois exemplos que, não tendo o poder de desequilíbrio de Gyokeres, servem para ilustrar um pensamento completamente antagónico e que, cartas lançadas, traria ao utópico Gyokeres encarnado o desenlace de contratação pífia e inconsequente.
E também não se percebe de que forma é que Luís Filipe Vieira conseguiria vender “três ou quatro monos” para manter João Neves nos quadros. Foi uma transferência no valor de 70 milhões de euros – bem vendido – e uma folha salarial que seria incomportável para os cofres da Luz, sempre com aquela sensação salpicada de que o Benfica não teve outro remédio senão o de vender uma das suas joias da coroa.
E, se o facto de Rui Costa tratar Rui Pedro Braz por “mano” é um assunto pessoal e “lá com eles”, há uma verdade que sobressai das palavras do ex-líder: o Benfica está pior do aquilo que estava. Isso é indiscutível. E, no panorama atual, até una furos abaixo dos seus rivais Sporting e FC Porto.
Há algo de consensual: Bruno Lage é um grande treinador e, malgrado o plantel não ter sido por ele construído nem definido (e só não foi porque Rui Costa teimou em manter Schmidt), os encarnados vão ficar mais fortes em termos de jogo de banco. Mas a pertinácia do setubalense bate de frente com alguns icebergues: em primeiro lugar, a necessidade imperiosa de salvar a pele de Rui Costa e de, ao mesmo tempo, eliminar o nascimento do fantasma da associação do seu próprio nome com o do saudoso capitão Mário Wilson – aquele que competentemente aparecia quando era preciso o Benfica ter um treinador; depois, o Benfica tem mesmo de vencer em todos os tabuleiros onde está inserido, sob pena do adágio “pau que nasce torto tarde ou nunca se endireita” pontificar em todos os segmentos de uma época desastrosa.
Mas o terceiro ponto é, seguramente, o mais pertinente. Bruno Lage pega, à quinta jornada, numa equipa cristalizada do ponto de vista tático e edificada em Florentino – Barreiro, uma espécie de “muro de Berlim tático” que é incompreensível tendo em conta o papel de dominador que mesmo um Benfica mais débil nunca deixará de exercer na liga portuguesa. Da prioridade ao supérfluo, as coisas vão mudar e o dito “muro de Berlim” vai cair. A questão são as lacunas: é que nem é bem a propensão de Renato Sanches para as lesões – é mais o facto do Benfica não ter um médio-centro organizador; também não é o bem facto dos encarnados mudarem para um 4x3x3 ou para um 4x4x2 – é, isso sim, o facto do Benfica não ter atualmente um extremo puro nos seus quadros (Tiago Gouveia lesionado) e ter contratado Akturkoglu em pleno estado de emergência; e também não é o facto de ter vendido Morato – é, isso sim , a ausência de um central esquerdino que permita, a longo-prazo, a efetivação das ditas saídas a três a partir da primeira fase de construção que tão bom resultado têm dado noutros rivais.
O que é que Bruno Lage não tem? Tempo. Com o assento a escaldar e a obrigatoriedade de confirmar predicados num período em que a Liga dos Campeões está a bater à porta. E outro dado curioso: Lage não deixa de ser a escolha certa mas, curiosamente, também poucos deveriam ser os técnicos que desejariam vir para um Benfica tão turbulento nesta altura. É que o trabalho – de transformação e de afinação da equipa – é dantesco e muito difícil de executar num curto espaço de tempo. Do outro lado do argumento, a versão romântica da coisa: é nestas alturas que os super-heróis aparecem. E tanto melhor se os mesmos forem do Benfica desde pequeninos.
Quais os eventuais perigos? Tomás Tavares, Nuno Tavares ou Ferro. Ou, numa leitura mais concreta, uma aposta tão forte nas camadas jovens que se torne ao mesmo tempo, prematura e inconsequente. Razão tem Fernando Santos: lançar um jovem fora de tempo é queimá-lo para sempre. Seja como for, se o voltar a fazer, também não será por aí que o edifício cederá. Há problemas bem mais graves neste Benfica em andamento. Em reconstrução. Em andamento. E sem tempo.