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Braga: Há sempre um vulcão debaixo das pedras

Artigo de opinião de Gil Nunes.

Braga: Há sempre um vulcão debaixo das pedras
Depositphotos

Controlar o caos e colocá-lo do nosso lado. Ou, por outras palavras, como gerar um caos e aproveitá-lo da melhor maneira para que o risco tenda para o nosso lado. Ou definirem-se fatores de risco propulsionados por um individual que, no seu eixo de desequilíbrio, consiga resolver a contenda e desaguar no mais importante: os três pontos. Estreia em cheio na Liga Europa. E pouco mais interessa.

Depois, há os benefícios emocionais daí provenientes. Valha a verdade, e um pouco para sacudir a pequena intempérie que grassou após a “vitória do Vitória”, nada melhor do que um triunfo obtido a ferros e que levou a Pedreira ao rubro. Até porque a conclusão tem de ser feita: o Braga ainda está em processo de reconstrução e teve o “galo” de defrontar duas equipas – Vitória e Maccabi – com processos coletivos consolidados e que esbarraram em algumas debilidades dos arsenalistas.

Sobre o Maccabi, a surpresa ou talvez não. Em bom português, e coletivamente falando, o Maccabi “joga à brava”. Carlos Carvalhal revelou, na conferência de imprensa, a preocupação mantida com o foco de alimentação que pontificava no pivô defensivo, cuja ação permitia um pensamento e execução de jogo até extraordinário para uma equipa oriunda da liga israelita. E sim, o Braga da primeira parte foi uma viatura híbrida: é certo que as preocupações táticas foram mantidas – início em 4x3x3 – e a dupla de médios – André Horta e Vítor Carvalho – não se coibiu de pisar zonas mais adiantadas, mas a maturidade do Maccabi ia fazendo das suas – registe-se, sobretudo, a capacidade de arrastamento dos centrais para zonas mais subidas, com o objetivo de gerar crateras à retaguarda que iam sendo aproveitadas pelas penetrações dos ditos médios. O que, acima de tudo, origina aquela reticência no médio cujo mindset até está definido para a componente ofensiva mas não vai. Um travão no inconsciente.

Problemas do Braga? Sim, a adaptação dos novos reforços (e o fecho de mercado funcionou muito bem para os arsenalistas) e dois avançados – El Ouazzani e Roberto Fernandez – em que nenhum deles representa um produto acabado para a dianteira. Ora, se o Sporting tem Gyokeres, o Benfica tem Pavlidis e o FC Porto tem Samu, os arsenalistas não apresentam um nome consensual, algo que acarreta um problema acrescido: uma substituição quase como pré-encomendada. É certo que Carlos Carvalhal também refere, e bem, que a qualidade de ambos é indiscutível, mas pede-se algo mais (esperava-se Banza) que conseguisse afirmar-se como eixo de blindagem para o desenvolvimento harmonioso da dupla num cenário de menor exigência.

Mas os reforços bateram na mouche. Ou melhor, procuram colmatar aquilo que realmente se necessita. Não é nenhum ultraje afirmar-se que, muito embora Gomez e Marin não sejam propriamente ovelhas negras, o setor precisava de reforços, sobretudo de reforços com alguma experiência. E, na frente e como poço de desequilíbrio, havia necessidade de se criarem alternativas a Bruma e Roger, isto tendo em linha de conta que Gabi Martinez ainda é um protótipo em fase de desenvolvimento. Guitane tem provas dadas, adaptação ao futebol português, e será só uma questão de semanas até se tornar numa das referências da equipa. E Guitane, tal como El Ouazzani, saíram ao intervalo.

E não foi só por essa razão mas o Braga teve mesmo de mudar ao intervalo. Com, mais uma vez, um nome a pontificar no epicentro do ramalhete: Gharbi. Depois de ter sido um dos principais responsáveis pela conquista da vitória diante do Nacional, voltou a fazer das suas: muitas vezes aparecendo pelo meio do lado esquerdo, a sua capacidade técnica faz que a equipa contrária tenha de recuar para impedir o desequilíbrio e a taxa de sucesso em situações de um contra um. Seja como for, a boa notícia é que o “um contra um” não é propriamente glutão no seu processo de execução. No lance do golo do empate, por exemplo, o médio espanhol soube perceber a entrada de Roger para o servir no momento certo, numa situação que evidenciou uma nuance também apresentada na segunda parte: a colocação de Fernandez como pivô e o aparecimento de Bruma em zona de finalização próxima do ponta-de-lança.

Tudo está bem quando acaba bem. Ou, por outras palavras, se a balança do jogo tivesse pendido para o lado dos israelitas (como esteve perto de acontecer) tudo seria diferente. E, valha a verdade, a apresentarem esta qualidade de jogo, dificilmente o Maccabi não ficará no lote dos apurados. E não teria sido nenhum escândalo terem saído da Pedreira com os três pontos.

Não é obrigação do Braga, nem tão pouco do FC Porto, a de vencer a Liga Europa. Até porque, para tal, tem de haver um equilíbrio entre primeiras e segundas linhas que, para já, não existe. A questão é outra: pelos seus pergaminhos, por um novo paradigma, é expectável (quase uma obrigação) que os arsenalistas vão longe na competição. Por aí sim. Por aí o vulcão terá de voltar a entrar em erupção. Tudo que não esse cenário será o de desilusão.

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