
Artigo de opinião de Gil Nunes.
São cerca de 4600 os quilómetros que separam Bodo do Porto. Isto para já não falar da diferença de 10 a 15 graus em termos de temperatura. E ainda podemos somar os quatro dias – 96 horas – que separam um embate do outro. Sendo que daqui por mais ou menos 100 horas também se recebe o United no Dragão. Mas, afinal, quem não ponderaria a rotação da equipa?
É senso comum que os profissionais estão habituados a estas andanças. E não lhes faz mal nenhum. E também é certo que não há distância nenhuma que desculpe um FC Porto versão norueguesa que deu uma pálida imagem de si mesmo. Sobretudo do ponto de vista da agressividade defensiva a partir dos alas – Iván Jaime (Sérgio Conceição deve estar a esboçar um sorriso maroto) e Gonçalo Borges. Na altura da perda. Porque ninguém pode adivinhar quando o drible sai ou quando o um contra um é facilmente ultrapassável. Agora, quando não se corre para trás e não se impede a transição ofensiva adversária, tudo se destrói. Como num castelo de cartas.
Seja como for, há peças que não são mesmo para mexer. Sobretudo agora. Pode haver réplicas para tudo, mas para um polvo como Alan Varela é altamente improvável. O médio argentino é a espinha dorsal da equipa, conjugando capacidade para tornar o miolo fluido ao mesmo tempo que recupera rapidamente e impede que o adversário se agigante. Pelo miolo ou pela falta de dobras aos laterais. E, valha a verdade, também não se pode pedir a Grujic – que atrapalhadamente dá sempre três ou quatro toques na bola antes de a entregar – para ter um rendimento quiçá parecido ao do seu colega de setor. Uma diferença monumental.
Ainda assim, capacidade para fazer mais e melhor. Diante ao Arouca, os dragões foram versáteis ao ponto de iniciarem o jogo com Vasco Sousa em cunha com Samu – depois apareceram Pepê, Galeno e Nico – sempre com a perspetiva de oferecer à zona interior o colorido que não teve em épocas transatas. É lógico que, para tal, é necessário que Samu esteja devidamente articulado para jogar em apoio com os médios (trabalho de bastidores e tempo) e, também, que a equipa consiga soltar-se nos corredores sem ter receio de crateras à retaguarda. Por aí, ainda há trabalho a fazer. Mas nada de grave: Francisco Moura vai demonstrando adaptação assinalável – ora aparecendo como elemento de construção numa linha de três – projetando Galeno – ora então explorando o corredor esquerdo, o seu rendimento constante tem sido uma das surpresas deste início de temporada e a garantia de que há certos jogadores que não enganam. São como o algodão.
Seja como for, a mudança tática operada na segunda metade foi decisiva. O 4x4x2 teve o benefício próximo de dinamitar a frente de ataque num cenário de menor perigo contrário dada à expulsão de Yalcin, mas também foi pensada a médio e longo-prazo. No caso de Fábio Vieira, de forma quase evidente: Vítor Bruno reserva a zona média direita para o criativo, com o objetivo de catapultar uma característica que o torna diferenciado e superlativo em relação a todos os outros: o timing de decisão. Ou seja, se não é fácil arranjar-se um jogador criativo, ainda mais complicado é possuir um com a astúcia para libertar a bola exatamente naquele preciso segundinho que faz toda a diferença. O desmantelador.
É evidente que um jogador como Fábio Vieira pode renar ainda mais quando opera em latifúndios e tem como companheiros de equipa elementos com capacidade para explorar profundidade e espaços abundantes. Daí que a cartola ainda tem mais um coelho. E sueco: de nome Deniz Gul. É certo que os golos que marcou ainda foram meios repenicados mas a postura com que o jovem avançado encarou ambas as partidas – Bodo e Arouca – ratifica o potencial de um jogador habilitado para explorar os três corredores da frente de ataque, e também limado numa perspetiva de construir uma dupla com Samu que pode ser tremendamente interessante. Leia-se fábrica de golos.
Sim, porque a principal característica do chip implementado por Vítor Bruno é a versatilidade apresentada na dinâmica ofensiva, que torna os dragões mais salientes pelo corredor central e, por conseguinte, também mais imprevisíveis na abordagem ao jogo. Ou, por outras palavras, começa a cair a dificuldade que o FC Porto tinha em penetrar linhas de cinco, algo que a ser tornado hábito poderia tornar-se num poderoso antídoto em relação às intenções de um grande que não pode viver nem de bolas paradas ensaiadas nem de dinâmicas coletivas afinadas ao expoente do imponderável.
Dar espaço ao risco, fazendo com que os remates de longe sejam mais frequentes. É claro que maior risco pressupõe uma menor dose de consistência mas é como tudo na vida: com tempo, com trabalho, os índices de consistência vão aumentar e os “Aroucas” podem ser desmantelados em meia-hora. Depois em quinze minutos. E por aí adiante até se ter sempre uma munição suplementar.