
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Nem é bem a saída de Hugo Viana para o City no final da época, e o facto da “bomba” ser largada já em outubro. No Sporting, está tudo na maior. Ficou tudo na maior. E o maior dos méritos reside na capacidade de comunicação de Rúben Amorim que, na arte das palavras, construiu uma fortaleza em torno do reino do leão. Impenetrável. inexpugnável E ainda deixou uma dourada janela aberta para as entrelinhas. Saudável e legitimamente mais convenientes.
Todos os dias saem e entram quadros nas grandes empresas, pelo que quer Sporting quer Hugo Viana não fogem à regra. Certo, mas a questão é que essas mudanças não abrem os telejornais nem mexem numa estrutura com milhões de adeptos. Mas, de facto, a comparação com o que acontece no mundo empresarial é mesmo a melhor das soluções: quanto mais se normalizar um assunto tendente a ser exponenciado (sobretudo em caso de hipotética crise de resultados), maior também é a probabilidade de tudo passar nos pingos da chuva e a turbulência ser apenas uma ilusão.
É também certo que ninguém pode ignorar que Hugo Viana é uma peça essencial da engrenagem leonina. Se o Sporting não tem capacidade financeira para comprar tudo aquilo que efetivamente deseja – veja-se o caso de Ioannidis – há que reconhecer a eficiência do diretor desportivo num universo de contratações extremamente bem-sucedidas: Viktor Gyokeres, Morten Hjulmand, Franco Israel, isto num espectro em que mesmo no mercado nacional raramente houve flops. Talvez um ou outro Sotiris mas nada de grave. É impossível acertar-se sempre e nisto Rui Costa tem toda a razão do mundo: o que interessa é nunca se perder o critério. Porque “Juraseks” vão existir sempre. Ninguém é infalível, ninguém acerta a cem por cento. Nem lá perto.
As virtudes de comunicação de Rúben Amorim são inatas e, por outro lado, escudam-se também numa estrutura leonina (+ Hugo Viana + Frederico Varandas) que tem no técnico o príncipe das palavras e o ponta-de-lança na altura de falar aos microfones. E a saída de Hugo Viana traz consigo nova questão de um milhão de dólares: em caso de recomendação de novo técnico para os “cityzens”, não é preciso ser-se vidente para se perceber que o nome de Amorim estará no topo das prioridades. Neste segmento, o técnico leonino volta a apostar na carta certa: Viana tem o seu caminho e eu tenho o meu. Uma coisa não leva à outra. O que é verdade. Mas uma verdade com janela aberta. De interpretação filosófica. Sim, é certo que uma coisa não leva à outra mas Rúben Amorim também não disse que seria impossível. Uma coisa bem que pode levar à outra. Em certos casos. E, a acontecer a ida de Amorim para o City, o cenário nunca entrará em contradição com aquilo que foi dito. Ou que não foi dito. De forma inteligente porque os grandes comunicadores sabem que o silêncio também fala.
Um dos aspetos mais salientes da política de contratações do Sporting está relacionado com a adaptação plena ao mundo “Fabrizio Romano” em que vivemos. Para quê esconder – a contratação de Samú (FC Porto) foi uma exceção é certo – se atualmente tudo se sabe e tudo se transmite nas redes sociais? É certo que o contra-argumento reside no facto da potencial inflação que o vendedor pode colocar no processo de negócio, sendo que nesta equação a vontade do jogo em sair representa uma variável determinante. Se o jogador quer sair e rumar a outras paragens, está no seu direito. Se quer ficar porque está feliz com o ambiente, com a comida e com o projeto, tanto melhor. Lá em casa tudo bem.
É o que acontece com Gyokeres. Outra jogada de mestre de Rúben Amorim. É que o sueco está no vintes e na idade de fazer umas loucuras e, valha a verdade, fumar uma shisha também não é nenhum crime de lesa-pátria. E o episódio aconteceu em dia de folga, o que é naturalmente diferente de ter acontecido dentro do horário de trabalho. Mas o que interessa reter é que Rúben Amorim soube ser o pedagogo de serviço e, com as suas palavras, apagar um fogo que noutra situação poderia ter causado labareda descontrolada. Sem tocar no ponto essencial, que ficou para uma eventual “dura” no balneário: é que o sueco está nos vintes mas é uma figura pública. Ponto. E, como tal, tem de se resguardar. Não se colocar a jeito. Realizar as ditas pequenas loucuras em privado e em condições de máxima privacidade, para que o episódio não nasça e muito menos se exponencie. Dentro de portas, deve ter ficado com as orelhas a arder. Mas isso não precisa de se saber.
Sobre Viana, e acima de tudo, Rúben Amorim tentou que aquilo que na maior parte dos casos representaria um “tiro no porta-aviões” passasse por um mero tiro ao prato. Porque, sinceramente, mais vale assumir-se agora a saída de Viana do que alimentar-se e arrastar-se uma novela de fim previsível. Que seria exponenciada caso as coisas não corressem bem. E, nestas coisas, há sempre espaço para a tal mentira repetida que até passa por verdade: na semana do jogo diante do City, Viana até nem entra no balneário. Fecha-se em copas para não causar problemas. É que ninguém acredita nisso mas, no fundo, também não tem importância nenhuma dentro de uma estratégia de comunicação em que Rúben Amorim voltou a mostrar toda a sapiência do mundo: naquele seu jeito descontraído mas genuíno, como se estivesse a falar com o grupo de amigos, a coisa rola sem problemas. Cada palavra é um tratado. Rúben Amorim.