
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Foram os arrebentados, agora veio a chamada “portização”. Para lá da mensagem ter tido impacto zero no covil, ainda serviu para se oferecer um bom slogan – gratuito – aos gratos dragões. O pai leão alienado ataca novamente. Numa altura em que ninguém consegue ter argumentos para contrariar a superioridade leonina dentro de campo, eis que Frederico Varandas decide dar uma ajuda à concorrência e, à semelhança do que aconteceu antes da final da Taça de Portugal, decide espicaçar grotescamente os adversários. Para pendurar a letras gordas no balneário do Olival. Como fazer tudo ao contrário e achar que se está a fazer uma coisa muito inteligente.
Para os lados do leão, felizmente que existe um treinador que sabe o que diz e que prontamente se disponibilizou a apagar o fogo. Foi só desenrolar o tema da hipotética renovação (para se passar a falar disso) e, ao mesmo tempo, transmitir uma série de mensagens indiretas que valem ouro. Que bem que se está em Portugal, não é Viktor Gyokeres? É desfrutar do país agora e sempre, dado que não há dinheiro nenhum no mundo que compre este mar encantado de qualidade de vida. No City não tens disto. De certeza!
No jogo dos egos. É óbvio que o Presidente do Sporting, como evidente figura maior da estrutura, não pode no interior da carapaça durante todo o tempo. Como se fosse uma espécie de vaso ou de cómoda que, estando ali, não incomoda nem atrapalha. Sim, tem de falar. De forma ponderada. Acontece que o Sporting possui um treinador altamente habilitado do ponto de vista da comunicação, que permite que todos os outros girem ao redor da sua mensagem-mãe e com a intensidade que pretenderem. No fundo, o mais sensato que Frederico Varandas tem a fazer é seguir no encalço da mensagem de Amorim, amplificando-a sempre que o momento se proporciona. Nada mais do que isso. Caso contrário – arrebentados e portizações a rodos – entramos na estrada em que um é incendiário e o outro é bombeiro. Incendiário e bombeiro. Incendiário e bombeiro.
É certo que falar é fácil e inofensivo quando temos pela frente um adversário como o Sturm Graz, que é manifestamente inferior. A excelente campanha dos leões na Liga dos Campeões afina por uma regularidade impressionante e por um conjunto de nuances que tornam o Sporting temível mesmo quando está a ser dominado: assim marcou Gyokeres diante do Sturm Graz, assim o fez também em agosto frente ao FC Porto – adversário a controlar em zonas altas com o central a desembrulhar a situação e, num ápice, a solicitar o corpo-a-corpo e a exploração de profundidade por parte do avançado sueco. A estratégia é clara: mesmo numa situação em que está a ser controlado, essa hipotética situação de subserviência é uma máscara feita de pano de veneno. É claro que para se efetivar este contexto – aparentemente simples – são necessários jogadores diferenciados: como, por exemplo, centrais com qualidade técnica para executar o movimento quase de forma automática. E, se não os há, nada como improvisá-los: como Ricardo Esgaio, hábil a jogar em zonas interiores (pé esquerdo também), e que nesta partida atuou como central do lado direito, em alimentação e resguardo a um Catamo (pé trocado), que mais uma vez realizou uma estupenda exibição.
Esta dinâmica, de serenos sobressaltos ou de adormecimento camuflado, refletiu-se também no lance do golo inaugural: à circulação de bola em zonas recuadas somou-se o “gatilho” Trincão na hora certa. Por outras palavras, o recuo do 17 fez que toda a equipa se movesse num determinado sentido com o intuito de se abrir Catamo no corredor e de se providenciar o espaço para Nuno Santos aparecer no segundo poste a concluir. É que nem é bem o fio do laboratório, que pode ser esmiuçado e escalpelizado pelos demais: o êxito leonino reflete-se no poder das nuances, e na clarividência de que aquele intérprete – Catamo – provavelmente faria as coisas de maneira diferente do que Quenda. E que essas nuances seriam as ideais para se desmantelar rapidamente o Sturm Graz.
É que o maior elogio que se pode fazer ao Sporting é dizer-se que os problemas que apresenta são, na realidade, pequenos problemas que até nem se configuram como pontos fracos. Sim, aos verdes faz ainda falta um centrocampista que seja uma espécie de superfusão entre Morita (rigor, tática e outra eficácia nos duelos) e Daniel Bragança (criatividade e técnica). Mas a questão é que o Sporting utiliza os dois como quer e consoante a necessidade que o jogo determina. Sem hiatos. E, na retaguarda, vai resolvendo os problemas ao nível das bolas paradas defensivas ao mesmo tempo que consolida uma das revelações da temporada – Franco Israel e uma maturidade que é louvável, surpreendente e extremamente útil, leoninamente falando.
Se as competições internas vão proporcionar, cada vez mais, a rotatividade dos quadros, o avião Sporting segue tranquilo e seguro. Mesmo com o comandante, mais uma vez, a beber umas cervejolas às escondidas. O que vale é a tripulação estar atenta e bem preparada para todas as eventualidades. Não há turbulência que não se transforme em brisa. Sporting.