
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Não que o jogo diante do United tenha representado um trauma. Mas, por ali, tomou-se como certa uma evidência: o FC Porto tinha de colocar o pé no travão e reconsolidar o seu processo defensivo sob pena de se entrar num cenário de regressão = perda de pontos. As casas constroem-se com alicerces sólidas e as boas equipas têm sempre um travo de cinismo. Três pontos são três pontos. E zero golos sofridos representam a beleza da simplicidade: quem não sofre golos está sempre mais próximo de ganhar. Verdade indesmentível.
Não se pode é ser mais papista que o Papa. Um clube grande, como o FC Porto, nunca poderá colocar o holofote das prioridades na defesa intransigente do seu último reduto. Por aí, Vítor Bruno coloca a lanterna no trilho certo: podemos não ser talentosos ou geniais. Pode não se marcar golos de levantar o estádio. Ficará eventualmente para mais tarde: porque agora é tempo de ladrilhar. De cimentar uma equipa jovem e que foi injetada com uma boa dose de reforços – que necessitam de tempo para fazer a diferença. Como aconteceu com Tiago Djaló: a construção esteve algo perra e não foi por acaso que Vítor Bruno até trocou os centrais de lado na primeira parte. Sem grandes consequências, é certo, mas ainda demonstrativas de que as peças não estão totalmente sedimentadas no puzzle.
Do lado dos dragões, há um jogador que enche as medidas pela forma como equilibra a equipa em todos os momentos. Com bola e sem ela. Aliás, Nico Gonzalez é mestre nos comportamentos sem bola e na criação de linhas de passe a partir daí. E dá um jeito tremendo ter no miolo um elemento cuja inteligência é tida e medida em todas as alturas do jogo. Sobretudo na partida diante do Estoril: foi notória a excessiva prudência de Alan Varela em todas as abordagens, procurando evitar o quinto amarelo que o colocaria fora do clássico. Também por aí: não se pode ser mais papista que o Papa. Foi um Alan Varela irreconhecível, de pantufas, que motivou a necessária alteração individual ao intervalo e que, acima de tudo, colocou o FC Porto com outros níveis de agressividade e uma mais elevada capacidade alta de circulação. Por aí, destaque também para as horas extra de Nico Gonzalez: era preciso trabalhar pelo próprio e pelo adormecido colega de setor.
Num jogo em que os dragões nem sempre conseguiram entrar em posse – muitas vezes as penetrações foram realizadas pelos corredores ou em profundidade (Pepê em evidência) – reforço do protagonismo de um elemento – Namaso – cuja simplicidade de movimentos torna o FC Porto mais fiável no processo de desmantelamento de blocos mais baixos. E que demonstra – de uma forma turva, é certo, mas luzidia à luz do contexto – que a sua presença na equipa é pertinente neste tipo de jogos. Ora, se Galeno necessita de espaço para fazer prevalecer as suas valências, a capacidade de jogo simples, ligação entre setores e relação com o golo de Namaso é bem mais frutuosa e impactante na dinâmica ofensiva. É claro que, provavelmente, diante de Lazio e Benfica os papéis serão invertidos: Galeno regressará ao onze e Namaso ao banco. Sem que um esteja a despromover o outro. Apenas uma questão de contexto. Mais nada.
E veja-se o exemplo de Cristiano Ronaldo na seleção: mais minutos não representam aumento da qualidade de jogo. A performance de Galeno diante do Estoril afinou por esse diapasão: 25 minutos em campo com todos os condimentos (leia-se espaços mais amplos) para brilhar e sem grandes dificuldades. Na reta final.
Há várias diferenças entre o FC Porto da passada temporada e o atual. Desde logo o marcar cedo. Na primeira parte. Na realidade, por muito que os processos ofensivos possam estar apurados/calibrados, só o facto de se adquirir a tempo e horas a vantagem no marcador potencia uma almofada de segurança e, logicamente, motiva outra face por parte do opositor. Sim, é certo que o Estoril já teve quadros com mais qualidade. E sim, os amarelos da linha apresentam algumas debilidades no processo defensivo, que foram agudizadas quer com a saída de Pedro Amaral quer com o amarelo a Pedro Álvaro. Mas, ainda assim, o Estoril conseguiu rondar o último terço portista, mesmo que esse domínio tivesse sido ilusório e definido de acordo com uma perspetiva estratégica de que era preciso o Estoril chegar-se à frente para se ferido na retaguarda. Em profundidade.
Também é credível dizer-se que Fábio Vieira ainda não apresenta os índices de qualidade que lhe são apanágio. Com dois post-its no dossiê: em primeiro lugar esse crescimento – rotinas com os colegas e não só - só se adquire dentro do processo de jogo e até pela pertinência do segundo ponto: mesmo em má forma, Fábio Vieira tem um timing de decisão que pode desequilibrar de um momento para o outro. Aos diferenciados dá-se sempre um bocadinho mais de margem de tolerância.
O FC Porto conquista a vitória numa altura em que, sobretudo, era preciso não vacilar antes de um importante duplo confronto. E antes da paragem para as seleções – sinónimo de horas de trabalho em laboratório. Se os ventos de Manchester levaram para o Reino Unido o principal obreiro de um Sporting imperial, os dragões estão prontos para a eventual ultrapassagem na curva. Sem derrapagens. Implacáveis.