
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Bruno Lage tinha a perfeita noção de que dificilmente o Benfica conseguiria ser competitivo diante de Bayern e, quase cem horas depois, diante do FC Porto. Era impossível e irrealista jogar de forma eficiente em ambos os tabuleiros. Por isso, teve de tomar uma opção focada no contexto e em dois fatores determinantes: em primeiro lugar os encarnados dificilmente vão ganhar a Liga dos Campeões e, valha a verdade, perder com o Bayern pouco afeta a classificação (Feyenoord é outra coisa); depois, porque a liga portuguesa deste ano vai resolver-se e muito nos jogos entre os grandes, pelo que o clássico vale a dobrar. Aposta ganha. E convicção plena num técnico, Bruno Lage, que é de alto calibre e que tem tido opções de grande coragem e até impopularidade ponderada num cenário que não é, de todo, o mais favorável. Desabou o mundo após o dito autocarro da Baviera. Agora, foi tudo de génio.
De besta a bestial, Bruno Lage tomou a opção certa, sabendo também que o onze apresentando diante dos dragões é aquele que mais garantias dá. Neste momento. Por isso, idas à Alemanha à parte, havia que colocar os ditos onze numa espécie de redoma para que nada falhasse quando aparecesse pela frente o grande objetivo: a liga interna. E o Benfica ganhou de forma retumbante, de tal forma que pode adquirir um tónico emocional que alimente mas não iluda: os encarnados ainda estão no pós-Schmidt, em fase de recuperação, fase essa marcada por uma premissa base: uma esdrúxula cristalização tática. Ou, por outras palavras, o problema aparece quando o Benfica tem de mudar. Ou quando o adversário obriga a mudar: Feyenoord.
Mas, afinal, qual foi a chave do êxito? Sobretudo um fator essencial: o condicionamento das saídas de bola do FC Porto, sobretudo a partir do guarda-redes. Tudo tapado ao pormenor, fosse a saída longa para Galeno ou então as diferentes mais curtas que, acima de tudo, fazem os dragões agigantarem-se a partir do momento em que começam a construir. Daí se explica também o contexto: é impossível que o Benfica tenha preparado o jogo num espaço de cem horas. Com tanta atenção e detalhe, com tanto rigor, percebe-se que o plano de jogo teve um corpo de semanas. E sem qualquer tipo de censura em relação à opção tomada.
Uma escolha inteligente e que se enquadrou num contexto marcado por algumas nuances interessantes que fizeram a diferença, sobretudo lidas do ponto de vista do condicionamento vermelho à sala de máquinas azul: presença de Akturkoglu muitas vezes em cima da Alan Varela, sobretudo para aproveitar algumas debilidades do argentino quando tem de receber, rodar e passar (jogo diante do Farense na época passada); falta do diferencial de movimentos sem bola de Nico Gonzalez na construção (estava em zonas mais subidas), reproduzidos por um Eustáquio que provoca muitas linhas de passe, é certo, mas nunca é bem a mesma coisa; Martim Fernandes mais hábil no espaço longo mas mais atrapalhado quando o jogo pede exploração do um contra um – a equipa melhorou com João Mário; e a falta que fez Pepê, sobretudo no domínio do sem bola (mais eficaz que Fábio Vieira) e no equilíbrio que oferece à equipa quando ela tem de se reposicionar.
E, na segunda parte, uma opção tática que se revelou ganha: o posicionamento de Angel Di Maria no flanco direito, consecutivamente servido em passe longo e como principal farol da transição ofensiva encarnada. Ora, se os dragões tinham de se desdobrar para encontrar linhas de passe que não existiam, a perda de bola era muito frequente e a transição ofensiva assente no tecnicista Di Maria permitia, por um lado, a criação do eixo de desequilíbrio inerente à indiscutível qualidade do craque argentino; e, por outro lado, permitia também que o Benfica se canalizasse em torno dessa nuance e obrigasse os dragões a um desgaste suplementar de reposicionamento.
É claro que também ajudou um universo vermelho em torno de Fábio Vieira – um polo de desequilíbrio a qualquer momento. E uma espécie de liberdade camuflada a Samu, para que o avançado espanhol pudesse recuar e trabalhar como pivô, sabendo que tal desígnio o tirava da zona principal de ação: a área. Acima de tudo, o Benfica ganhou porque bloqueou o FC Porto em toda a sua margem de ação. Sobretudo ofensiva. E, mais importante do que tudo, abriu a “caixa de Pandora” para o que segue: os dragões ficam desnorteados quando as saídas de bola são condicionadas daquela forma em específico. Sim, nestas todas as equipas terão a mesma capacidade que o Benfica para anular esse ponto. Mas o ponto fraco ficou à vista de todos.
Nada se decide à 11ª jornada e também não é caso para se pensar na dispensa de Vítor Bruno. Não é por aí: de facto, a equipa está em reconstrução e longe daquilo que se deseja, sobretudo do ponto de vista defensivo. O calcanhar de Aquiles: o técnico portista montou uma máquina tremendamente eficaz do meio-campo para a frente, mas não teve, ou ainda não teve, capacidade de construir a mesma solidez à retaguarda. Também ajudava outro tipo de discurso: é que, verdade seja dita, se tivesse sido Sérgio Conceição a encaixar quatro na Luz, até os azulejos estalavam no pós-jogo. Sim, só quem está lá dentro é que poderá aferir da capacidade de Vítor Bruno em reavivar as tropas e ultrapassar os seus “Cabos das Tormentas”. Agora o discurso muito giro de que “há muita coisa a repensar e que o “máximo responsável sou eu” parece o filme do ET do Natal: mil vezes repetido e poucas vezes assimilado. Um pró-forma.