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FC Porto: O fator 3,5

Artigo de opinião de Gil Nunes.

FC Porto: O fator 3,5
Depositphotos

Não se pode admitir uma tão pífia exibição como aquela que o FC Porto protagonizou na Luz. E não se trata do acionamento do estado de sítio: apenas um astuto estado de alerta para se perceber que o cenário não está tão negro como muito o pintam mas que está, por outro lado, a descambar do caminho que se pretende. Um desvio de trajetória.

Se a dura que André Villas-Boas deu no balneário do Benfica foi forte ou branda nunca se vai saber mas uma coisa é certa: tinha de se fazer alguma coisa. E fez-se. Não que os seis pontos em atraso sejam uma tragédia e não que perder na Luz também seja o maior dos pecados. Não é por aí: clássicos nunca são hegemónicos – tanto se ganham como se perdem. A questão está no “baile” que o FC Porto levou na Luz: não é admissível tendo em linha de conta os pergaminhos de uma equipa grande que não pode ultrapassar certos limites mínimos. E uma palavra alusiva ao contexto: ganhando ou perdendo e numa liga em que os Golias estão separados dos demais (exceção ao Santa Clara), de referir que à 11ª jornada o FC Porto já foi a Guimarães, Luz e Alvalade. E que os vai receber na segunda volta.

Uma equipa aos ziguezagues: trata-se da mesma equipa que recuperou de uma desvantagem de três golos diante do Sporting; trata-se também da mesma equipa que recuperou o jogo diante do Manchester United depois de um começo atribulado; e trata-se da mesma equipa que, dias antes do desaire da Luz, entrava com facilidade na área da Lazio e tinha tudo para fechar o jogo. Mas é também o FC Porto de Bodo. Ou o FC Porto que é abafado na Luz. Aí reside o problema: porque não se tratou de perder, tratou-se isso sim, da forma como se perdeu e da constatação de que tal não se pode poderá voltar a repetir. Mas, no fundo, qual o mal de que padece o dragão?

Vários sublinhados pontificam no bloco de notas: uma tendência do treinador para procurar um futebol de ataque, dominador, que seja distinto em relação ao que aconteceu no passado próximo (com Sérgio Conceição). Se a nova realidade é legítima e, afinal de contas, quem contrata um treinador contrata uma filosofia de jogo, a abordagem de Vítor Bruno tem sido demasiado radical e não é compaginável com o fator 3,5: ou seja, a linha defensiva titular do FC Porto é composta por três jogadores que entretanto chegaram (Francisco Moura, Nehuén e Tiago Djaló) e por um jogador, Martim Fernandes, que só jogou na reta final da temporada passada – o tal 0,5.

Neste aspeto, Sérgio Conceição era mais fiável: um, dois ou três meses (veja-se o caso de Nico Gonzalez) mas o jogador só entrava na equipa quando estivesse plenamente formatado do ponto de vista tático e ideológico. É certo que, até à chegada de Francisco Moura, o FC Porto jogava com Galeno a defesa-esquerdo; e que os centrais eram um problema bicudo e já desde a temporada passada. Seja como for, a crítica que pode ser feita reside no facto de não se ter esperado mais duas ou três jornadas para, mais do que evidenciar as inegáveis qualidades dos jogadores em questão, se consolidar o processo dentro de uma dinâmica coletiva que não pode ser tão falível nem ao processo em si nem à transição defensiva – como está a ser.

E não é só o tal 3,5. No jogo da Luz atuaram também de início Fábio Vieira e Samu, que não estavam na temporada passada. 5,5. Que é exatamente metade de 11. É claro que o cenário não pode ser lido do ponto de vista aritmético mas a realidade não foge da frieza dos números: os dragões estão a jogar com meia equipa nova. Que não se consolida nem num par de dias nem em meia dúzia de meses. Acima de tudo, e antes de se pensar numa saída de Vítor Bruno que não faz qualquer tipo de sentido, importa ressalvar que o dragão está num processo de reconstrução aguda desde a temporada passada, isto somado à saída de jogadores determinantes – casos de Francisco Conceição ou Evanilson.

Porque também não se pode pensar que se troca Francisco por Fábio e a máquina fica na mesma. Nem Samu por Evanilson. E que as trocas operadas não têm consequências à retaguarda até pelo ponto de vista de que, à luz do futebol moderno, os atacantes são os primeiros defesas e, numa equipa grande, tudo se constrói a partir daí.

E não há o trauma de Otávio mas também é certo que a equipa nunca mais foi tão sólida na reação à perda desde a sua saída para o Al – Nassr. A sua saída representou a efetiva saída do melhor jogador da liga até então – que foi efetuada no início do epicentro de um cenário de turbulência como aquele que o FC Porto viveu na temporada passada. Se a Vítor Bruno não falta a competência para capitalizar um dragão de ataque em meia dúzia de semanas, também não lhe faltará o engenho para tudo calibrar no processo defensivo. Nem que seja preciso jogar como diante do Hoffenheim: objetivo não sofrer golos. Manter a rede a zeros. Para se estabilizar a caravela e continuar a navegar. É que, nestas coisas, o mar acalma-se e sobressalta-se. Mas o timoneiro tem unhas para dar a volta a situação. Para os lados do dragão apenas uma palavra: confie-se.

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