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Portugal: Em que dia se celebra o São Vítor?

Artigo de opinião de Gil Nunes.

Portugal: Em que dia se celebra o São Vítor?
Depositphotos

Os polacos poderão dizer, e com toda a razão, que o resultado de 5-1 foi exagerado tendo em linha de conta os contornos de um jogo que teve duas partes distintas: uma dominada pelos “Bialo e Czerwony” e outra que foi totalmente portuguesa. Ainda assim, o resultado tende para a equipa que tem melhores executantes. Melhores intérpretes. É certo que uma segunda parte de cara lavada ajudou, e muito, mas a substancial diferença residiu no plano individual. Portugal é melhor que a Polónia. Ponto.

A Polónia veio com a lição bem estudada: garantir a superioridade numérica no meio-campo, para que a confusão se generalizasse e as linhas de pressão de Portugal ficassem numa espécie de “terra de ninguém”. Na primeira parte, a estratégia foi conseguida e desaguou num propósito específico: muitas bolas nas costas da linha defensiva, em particular nas costas de Nuno Mendes e com um duplo propósito: criar uma situação de golo (claro está); e, de forma indireta, impedir que o defesa português subisse no terreno e acrescentasse o desequilíbrio que lhe tem sido apanágio. Aliás, um estudo pormenorizado do Portugal de Martinez não deixa dúvidas em relação à preponderância de Nuno Mendes como um dos principais intérpretes do pensamento e dos diferentes desenhos de jogo do selecionador.

É claro que tudo mudou com Vitinha mas convém não esquecer outro elemento fundamental: Diogo Costa. O guardião português nunca tremeu ao nível da circulação de bola – mesmo em zonas baixas e de algum risco associado – e respondeu positivamente quando teve de fazer a diferença: aos 40 minutos após ressalto em Dalot; e, no início da segunda parte, uma intervenção de altíssimo grau de dificuldade que impediu o golo de Marczuk. Mas volte-se a Vitinha: na realidade, o médio foi fundamental na redefinição das zonas de pressão sem bola e na construção mais definida e criteriosa, um pouco em antítese com as características naturais de João Neves – mais dado ao transporte e à progressão com bola. Com benefícios indiretos: com Vitinha em campo a ditar os timings do jogo, Bernardo Silva teve uma maior liberdade para recuar e definir também a sua batuta ao nível da construção e criatividade. E com Bruno a aparecer mais de trás e Pedro Neto a atacar zonas mais altas, foi ver um Portugal disciplinado e dominador, que rapidamente reteve uma Polónia que, apesar de tudo, apareceu com a lição estudada ao milímetro e que poderia ter assustado caso tivesse apontado o golo inaugural. Tudo corre bem quando acaba bem.

Duas notas a reter: ainda assim, malgrado os cinco golos na segunda parte, nada houve como a qualidade exibicional patenteada em Varsóvia ao longo dos noventa minutos. Nesse jogo em específico, pontificou a ação de Rúben Neves como âncora e municiador das linhas de ataque, numa ação que capitalizou o jogo português e, logo à partida, inibiu os polacos de frequentarem zonas mais subidas no terreno; e a segunda nota assenta num pensamento que pode ser precipitado: é que Portugal não fica mais forte com Bernardo, Bruno Fernandes e Vitinha em campo. É falacioso. Veja-se o que aconteceu diante da Croácia (jogo de preparação para o euro) e Eslovénia (oitavos de final do euro) em que tudo esbarrou numa falta de ideias/confusão a nível ofensivo. Depende do adversário, da sua estrutura, e por onde se pretende ir de acordo com as coordenadas do jogo.

Com outra reflexão associada: é que o estatuto já caiu. Se, dos três, só podem jogar dois, então Vitinha entra exatamente com as mesmas probabilidades de utilização, isto em termos de estatuto falando. Ou seja, um futuro meio-campo português poderá contar com Bruno Fernandes ou Bernardo Silva no banco, isto se as premissas do jogo ditarem que só dois poderão jogar. E o maior dos erros poderá estar alicerçado em dois pilares: hipotética prioridade aos históricos “BB’s” em detrimento do novato Vitinha; ou então a sofreguidão de que os três têm de jogar independentemente do que possa estar do outro lado. Pensamento de sentido proibido. Linha vermelha.

Até porque a mais coesa das sociedades portuguesas assenta numa dupla que tem estado impecável: Nuno Mendes e Rafael Leão. Se a mobilidade de Nuno acrescenta clarividência às dinâmicas exteriores e interiores, o cenário determina a exponenciação de um fator letal: a possibilidade de Leão ganhar largura para explanar as suas arrancadas e poderio físico. Ou então profundidade em transição ofensiva, como ficou bem patente no lance do golo inaugural. Por aí nada a mexer: se joga um tem de ser jogar o outro. Ponto. Até porque ambos já conquistaram o seu espaço em contexto de seleção.

Se o objetivo principal continua a ser a conquista do Mundial, a qualificação assegurada na Liga das Nações dissipou a nuvem de desconfiança em torno de Martinez. E jogos como os do Dragão ajudam e muito: é que entrar com um plano desajustado acontece a todos. Sem problema. Porque só os bons treinadores é que conseguem, no decurso do jogo, mudar a ampulheta e colocar tudo a ser favor. Na realidade, Martinez tem melhorado e muito após um Europeu cinzento: até a falar de Ronaldo. Já lá vão os tempos dos “dados confidenciais” e do endeusamento após a assistência para Bruno Fernandes no jogo contra a Turquia. Ponderação, mensagem e tudo a remar para o mesmo lado. Melhor Martinez, melhor Portugal.

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