Nomeações na Liga e mensagens sob investigação da PJ
A investigação à arbitragem analisa mensagens e nomeações de árbitros, com suspeitas de corrupção e tráfico de influências na Primeira Liga.
A investigação da Polícia Judiciária à arbitragem portuguesa ganhou novos contornos, três meses depois da demissão de Duarte Gomes do cargo de Diretor Técnico de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol. Segundo o Correio da Manhã, a PJ está a analisar mensagens de texto e áudios encontrados nos telemóveis de Luciano Gonçalves, ainda presidente do Conselho de Arbitragem, Paulo Lopo, ainda presidente do Estrela da Amadora, do próprio Duarte Gomes e dos árbitros Hélder Malheiro e Hugo Ribeiro.
Tudo teve origem numa exposição de 20 páginas que o Ministério Público recebeu no final de julho, onde são detalhadas suspeitas sobre a nomeação de árbitros para jogos da Primeira Liga, abrindo a porta à possibilidade de crimes de corrupção e tráfico de influências.
O que está a ser investigado
No centro das suspeitas está a alegação de que Luciano Gonçalves terá acertado previamente os árbitros para os últimos jogos do Estrela da Amadora, decisivos para a manutenção do clube na Primeira Liga, algo que acabou por acontecer. Hélder Malheiro terá sabido antecipadamente que dirigiria o Moreirense-Estrela da Amadora, da 32.ª jornada, antes de qualquer nomeação oficial ser anunciada, como explica esta investigação sobre a escolha de árbitros que já vinha a gerar polémica.
Horas antes do apito inicial, o árbitro terá recebido uma mensagem de WhatsApp atribuída a Luciano Gonçalves: “Bom dia amigo, sim é verdade, mas por favor, por favor mesmo”, acompanhada de emojis. A captura de ecrã, feita antes de a mensagem ser eliminada, está agora na posse da Unidade de Combate ao Crime Económico e Financeiro da PJ. A investigação analisa ainda indícios de alegados prémios na ordem do milhão de euros a dirigentes da arbitragem e o episódio da nomeação de Fábio Veríssimo para os quartos de final da Taça de Portugal entre FC Porto e Benfica.
Reações dos envolvidos
Duarte Gomes, Hélder Malheiro e Hugo Ribeiro já foram ouvidos, segundo o Correio da Manhã. Luciano Gonçalves afirmou ainda não ter sido chamado, mas garantiu estar “disponível para prestar todos os esclarecimentos”, rejeitando o alegado conteúdo da mensagem. Paulo Lopo disse não ter sido ouvido por não ser “parte envolvida”, negando qualquer conversa com os envolvidos.
O FC Porto reagiu em comunicado, rejeitando ter tentado condicionar a nomeação de Fábio Veríssimo. Os dragões afirmaram que “não nomeia árbitros”, “não participa no processo de nomeação de árbitros” e “não interfere nas decisões do Conselho de Arbitragem”, embora tenham reconhecido que a escolha do árbitro foi “particularmente imprudente e desnecessariamente arriscada” face a processos pendentes entre o clube e Veríssimo, uma polémica que ecoa as recentes críticas à arbitragem envolvendo o FC Porto.
A demissão e o inquérito arquivado da FPF
Numa entrevista à Antena 1, Duarte Gomes recordou o processo que o levou a demitir-se em junho.
Com elementos probatórios que, para mim, foram mais do que suficientes. De condutas com as quais não me revejo. E se são ilegais pode ser que a Justiça, que tem essa competência, assim o prove.
O inquérito aberto pelo Conselho de Justiça da FPF na sequência da demissão foi arquivado ainda em julho. O órgão considerou demonstrado que a nomeação de Hélder Malheiro foi antecipada e que Luciano Gonçalves enviou a mensagem em causa, mas entendeu que as provas não permitiam concluir que tenha sido ele a transmitir a informação, sublinhando que não dispõe dos meios de investigação de um processo criminal, como perícias a telemóveis ou escutas.
Próximos passos
Duarte Gomes garantiu que “haverá um momento” em que todo o caso “ficará estabelecido”, altura em que promete discuti-lo “de forma absolutamente aberta”. Para já, o arquivamento do inquérito interno da FPF não encerra a investigação da PJ, que continua a analisar o material recolhido nos telemóveis e as suspeitas descritas na exposição enviada ao Ministério Público, num momento em que se aproxima novo clássico entre nomeações de árbitros voltam a estar sob escrutínio na Europa.


