Portugal: Enquanto houver CR7 para andar, a Federação vai continuar
Artigo de opinião de Gil Nunes.
É que até podia falar em castelhano, ou em portunhol, que não vinha nenhum mal ao mundo. Mas só a atitude de querer aprender a falar português – e a fazê-lo – demonstra um sinal de compromisso bem como outro aspeto que mais alto se alevanta: a comunicação. Martinez tenta comunicar com pinças e medindo as palavras com alguma precisão. E inteligência.
Onde tem falhado? Precisamente na comunicação em torno da questão de Cristiano Ronaldo. É que, no caso em concreto, o mais imprudente que se pode fazer é tapar o sol com a peneira. O craque da equipa – indiscutivelmente o melhor jogador português de todos os tempos – está em fase final de carreira e já não é o jogador de outrora. Mas está bem, é hábil como poucos em termos de exploração de zonas de finalização e, acima de tudo, é convocável. Ou seja, com 640 milhões de seguidores nas redes sociais ou com apenas 6, cumpre todos os requisitos para estar nas convocatórias.
O que Roberto Martinez não pode fazer é dizer que o terceiro golo diante da Turquia – uma situação de dois contra zero em que o que se tem de fazer é passar ao colega do lado – devia ser exibido nas faculdades. Errado. Tapar o sol com a peneira ou endeusar-se alguém num cenário em que o maior prejudicado é mesmo CR7. Ou então alegar-se que os dados confidenciais comprovam que a utilização de Ronaldo no europeu foi adequada. Não foi. Foi exagerada. Hiperbolizada. O cenário atual é o mais sensato: utilização ponderada em face das necessidades de recuperação do atleta, numa lógica de que jogando menos pode render muito mais. E render a todos os níveis.
Porque Cristiano Ronaldo é uma mina. E as minas aproveitam-se. Não se deitam fora. E estas situações aparecem uma vez em mil anos. São cometas. Seria uma insensatez de todo o tamanho afastar-se dos caminhos da seleção a personalidade com mais seguidores nas redes sociais a nível mundial o que, de forma direta e indireta, se traduz num pote da fortuna para os cofres da Federação Portuguesa de Futebol. Enquanto houver Ronaldo para andar, a Federação vai continuar. E bem. Trata-se de uma situação particular e única a todos os níveis e que merece ser espremida enquanto – e sublinhe-se enquanto – o jogador tiver condições mínimas para ser convocável. Como tem tido. Até porque, a montante, já pontifica uma nova galinha dos ovos de ouro: o jogo de despedida de Cristiano Ronaldo da seleção. Que será um evento planetário de dimensões inimagináveis.
Se CR7 é uma justificável dimensão à parte, as convocatórias de Roberto Martinez têm procurado atingir novos tentáculos. Desde logo através da chamada de Ricardo Velho e não porque Portugal estivesse particularmente carente em termos de guarda-redes. A mensagem é outra: mostrar que todos os clubes contam e que o radar do selecionador não se cinge a um imutável núcleo duro. É claro que, neste prisma, a mensagem também foi refinada nos últimos tempos: é lógico que, numa realidade em que pouco tempo de treino e necessidade de rendimento imediato coabitam, é compreensível que o grupo de jogadores tenha de ser relativamente estanque. Mas há alturas – Liga das Nações – em que a janela se pode abrir um pouco mais. E, nessas alturas, há sempre espaço para a transmissão de mensagens fortes: afinal de contas o horizonte de Martinez alcança a vasta imensidão do oceano e não apenas aquilo que se vê no encalço de um solarengo e tranquilo dia de praia.
É claro que vir uma vez à seleção pode ser um epifenómeno. Muitas vezes a situação repetida, um verdadeiro tiro no pé e o passaporte para a instabilidade. Nem oito nem oitenta. Agora, há um tentáculo que nunca pode ser olvidado sob pena da estrutura da pirâmide se desintegrar: os sub-21. Por aí nada a dizer em relação a Roberto Martinez: Quenda e Tiago Santos não sofreram qualquer despromoção. Muito pelo contrário. Afinal de contas vir à seleção de sub-21 não deixa de ser vir à seleção. Ponto. E, consoante o cenário e os adversários, até pode ser mais produtivo para ambos defrontarem Andorra e Ilhas Faroé em cenário de “full time” do que estarem remetidos a um hipotético papel secundária diante de Escócia e Polónia.
Se o regresso de Otávio representa uma ótima notícia no sentido de um aporte de valências mais propícias à reação à perda e ocupação rápida de várias posições no miolo (características únicas), o principal desafio é a da manutenção da consistência (alguma) proveniente das duas últimas jornadas e, por conseguinte, consolidação do afastamento da nuvem de desconfiança que grassou após um europeu razoável. Ou razoável menos.
Sinal forte é também a troca de Gonçalo Inácio por Tomás Araújo. Central plástico e flexível por outro com as mesmas características. É lógico que Bélgica e Portugal são situações distintas, mas a receita que deu 28 jogos seguidos aos belgas é mesmo para repetir. A grande atenuante em torno da nuvem Martinez: no euro, o selecionador ficou longe de jogar como pretendia. Bem longe.


